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Capitão América e o dilema de um símbolo

  • Foto do escritor: Lucas Freitas
    Lucas Freitas
  • há 14 horas
  • 18 min de leitura

Uma breve discussão sobre a função dos símbolos e os conceitos e ideias que o Capitão América traz consigo.


Imagem do Capitão América, super-herói famoso da Marvel, em sua icônica roupa azul e vermelho, empunhando seu escudo e pronto para a ação.
Capitão América no traço de Ron Garney

Então, considerando o atual contexto geopolítico, imagino que o texto de hoje vai ser bem polêmico. Ainda assim, acredito que vai abrir espaço para uma discussão interessante. Porque, mais do que falar sobre a trajetória e sobre o personagem do Capitão América, gostaria de promover aqui uma discussão a respeito da ideia de símbolo.


Se você já é um leitor assíduo, já deve saber que os textos da Galeria geralmente se dividem em tópicos. Caso não, seja muito bem-vindo e saiba que todo texto mais logo que temos por aqui será sempre dividido em tópicos, e aqui vai uma breve estrutura do que vou falar hoje para te ajudar a se guiar pela discussão que vamos ter hoje:




Agora, vamos começar, sim?


Antes de falar do Capitão América, vamos entender um pouco melhor a função de um símbolo


O primeiro ponto que gostaria de discutir aqui antes de falar sobre o Capitão América é a questão do símbolo.


Verdade seja dita, este aqui é um ponto bem curioso e complexo de se lidar. Porque, a bem da verdade, vivemos em um mundo de símbolos. Segundo o filósofo alemão Ernst Cassirer (1874-1945) o homem seria um animal simbólico, que teria descoberto um outro método de adaptação ao seu ambiente através do sistema simbólico. Mais especificamente:

Não mais em um universo puramente físico, o homem vive em um universo simbólico. Língua, mito, arte e religião são as partes desse universo. Elas são os variados fios com que ele entretece sua rede simbólica, a intricada trama que é a experiência humana. Todo o progresso da humanidade no campo do pensamento ou da experiência vem para reforçar a força dessa rede. O homem não mais confronta a realidade imediata; ele não consegue vê-la, como ela é, para encará-la face a face. Na verdade, a realidade física parece recuar à medida em que a atividade simbólica do homem avança. Assim, no lugar de lidar diretamente com as coisas, o homem está em um processo de diálogo constante consigo mesmo; Ele está tão envolvido em formas linguísticas, imagética artística, simbolismos mitológicos e rituais religiosos que ele não mais consegue enxergar nada que não seja intermediado por essa interposição artificial.

O que acho interessante em trazer esse pensamento de Cassirer é justamente a visão dos elementos simbólicos presentes no cotidiano. Porque, veja, podemos definir símbolos, de forma bem grosseira, como marcas, sinais, ou mesmo palavras que trazem consigo um significado ou uma ideia. E a vida do ser humano está inundada por símbolos. Das placas de trânsito aos emojis que utilizamos no Whatsapp; das palavras que formam este texto que você está lendo, aos números das equações mais simples, todos esses processos são marcados por símbolos.


Manuscrito medieval retratando o Ouroboros, uma grande serpente que, retorcida sobre si mesma, termina mordendo o próprio rabo. Geralmente é utilizada como um representação do conceito de infinito
Ouroboros, um dos símbolos utilizados para representar o conceito de infinito


No entanto, existe uma questão bem importante que precisamos discutir aqui para poder complementar o significado de símbolos, e esse detalhe vai vir através do papel que a cultura exerce em sua formação.

Aqui, vamos entrar nos domínios da semiótica. Se você é das áreas de comunicação, artes ou letras, certamente já deve ter se deparado com ela em algum momento de sua trajetória acadêmica. Se não, uma explicação bem básica sobre o que é semiótica é a definição que de ela é a ciência que estuda a formação de significado e sentido. E para isso, ela vai trabalhar com a unidade básica da comunicação, que seriam os signos.


Isso, claro, vai variar de acordo com a abordagem da semiótica a ser adotada, mas, de modo bem simplista, o que diferencia um símbolo de um signo é modo como seu sentido é criado. Ao passo que o signo representaria um conhecimento "direto", em uma relação de causa e efeito, por assim dizer, o símbolo seria parte de um repertório cultural, ganhando seu sentido a partir do contexto histórico e cultural do meio em que é inserido.


Para explicar de forma ainda mais direta, vou apresentar aqui uma analogia que encontrei no blog do Grupo Luau Cultura, que apresentou o texto do psicólogo norte-americano Franklin Fearing (1936-1960):


"A distinção entre signos e símbolos nem sempre é fácil de estabelecer, e há muitos casos limítrofes difíceis de serem classificados. Falando de maneira geral, os signos ocorrem naturalmente. Por exemplo, uma pessoa perdida numa floresta pode interpretar um filete de fumaça no horizonte como indício de fogo e de possível habitação humana. Isso claramente é um signo. Se o fogo foi acesso com intenção de produzir fumaça como um signo para outra pessoa, então torna-se um símbolo. O caráter simbólico fica mais claro quando supomos que o intérprete e o produtor do fogo resolveram por combinação prévia que diferentes qualidades, formas, etc. de fumaça teriam significados especiais; com isso, ela se transforma num código, que pode ser utilizado por ambas as partes. O arranjo prévio pode envolver duas pessoas ou pode estar implícito na cultura de um grande número indivíduos." (Fearing, em Comunicação e indústria cultural , p.78-79)

Assim, temos que, para considerarmos algo como um símbolo, é preciso que existe algum tipo de acordo prévio entre as duas pontas da comunicação, oferecendo, assim, um contexto para sua interpretação, o que oferecerá uma série de significados que passarão a ser representados pelo símbolo. É justamente essa associação que os tornarão ferramentas tão poderosos em termos de comunicação, tanto que são usados com bastante frequência, seja na literatura, no cinema ou nas narrativas.


E é aqui que começo a falar com mais tranquilidade a respeito de símbolos. Porque, longe de mim me apresentar como semioticista, ou psicanalista, mas, de narrativa eu entendo um pouco.


Porque, o símbolo possuí um apelo irresistível quando utilizado em uma narrativa, primeiro, porque permite "resumir" um tema ou tópico inteiro em uma imagem (ou sequência de imagens) e segundo porque permite que o leitor/espectador/ouvinte tenha um processo de participação na obra, gerando um tipo de cumplicidade entre os dois. Afinal, aqui ele vai precisar interpretar o símbolo apresentado para entender o que o narrador quis dizer ou fazer.


Quer um exemplo legal do uso de símbolos em uma narrativa? Que tal começarmos com o já manjado Rosebud, de Cidadão Kane (1941). Parte do mistério que move a trama do filme, o trenó termina representando uma inocência e pureza perdida por Charles Foster Kane que, no fim de sua vida, sozinho e isolado, se vê desesperado por voltar para um local e época seguros e puros que já não mais existem.


Frame do filme Cidadão Kane apresentando o trenó marcado com uma rosa e o nome Rosebud
Frame do filme Cidadão Kane, onde nos é apresentado o trenó Rosebud

Outro símbolo maravilhoso se dá na cena final de Roy em Blade Runner onde, após seu confronto com Deckard, decide salvá-lo em seu momento de perigo. Em seguida, segue-se o monólogo clássico do filme que culmina com a morte de Roy. Nessa hora, a pomba que sobe aos céus funciona como uma representação de sua alma enfim conquistada:



Na literatura símbolos também são igualmente recorrentes, seja de modo específico, como no Retrato de Dorian Gray, onde o retrato em questão termina servindo como uma representação da corrupção que toma a alma do personagem título, seja por meio de personagens, como no caso do Senhor das Moscas, onde os personagens terminam sendo símbolos/representantes de ideologias e sistemas políticos.


Com os quadrinhos o uso de símbolos não poderia deixar de ser usado. Uma vez que atuam como uma união do meio escrito com o visual, o uso de símbolos e referências também é uma constante nessa mídia. Seja através de momentos chaves (como a volta do Demolidor em A Queda de Murdock), seja por meio de arcos de personagens (o começo da luta de Tony Stark contra o alcoolismo após precisar proteger um bebê do inverno de Nova York). Não só isso, pela própria natureza do gênero, os super-heróis tem uma tendência a personificar conceitos, ideias e mitos que se encontram presentes no ambiente cultural da sociedade onde se encontram , no processo que Umberto Eco (1932-2016) viria a chamar de mitificação.


Montagem que reúne duas imagems: A primeira, o Demolidor saindo das chamas, a segunda, um Tony Stark acuado em um beco tomado pela neve, na capa de Iron Man v1.#182
À esquerda, momento emblemático do Demolidor em A Queda de Murdock. À direita, capa da revista Iron Man v1. n.182, que dá início ao processo de luta de Tony Stark contra seu vício

E é nesse ponto que vamos trabalhar com a ideia do Capitão América.


Mas antes, um breve adendo:


Toda vez que falarmos de símbolos estamos trabalhando com um contexto cultural. Isso implica que culturas diferentes terão visões diferentes sobre um mesmo símbolo, de modo que qualquer discussão ou análise precisa sempre levar isso em consideração. Acredito que o próprio Stephen King chega a comentar sobre isso em seu Dança Macabra, ao falar sobre o impacto que os filmes japoneses de terror geram, e do porquê ele não se sentir confortável em analisá-los. Da mesma forma, já discuti um pouco sobre isso no artigo Um Conto de Dois Godzillas - Diferenças entre as Representações do Godzilla no Japão e nos EUA.


Agora, feito esse aparte, vamos voltar para o ponto.


Capitão América - Uma Breve História


Capa de Captain America Comics #1, onde o Capitão América aparece no meio de uma sala de oficiais nazistas socando Hitler
Capa original de Captain America Comics n1. , arte de Jack Kirby e Joe Simon

Criado em 1940 por Joe Simon e Jack Kirby, o Capitão América teve sua estreia em Captain America Comics n.1, sendo o primeiro personagem da Timely Comics, antecessora da atual Marvel, a ser introduzido em título próprio, e já com uma característica bem diferenciada, sendo o primeiro super-herói criado especificamente no contexto da Segunda Guerra.


A afirmação pode parecer forte, mas perceba: os super-heróis surgiram ainda em 1938, com a primeira aparição do Super-Homem, em Action Comics n.1. Desde então, foi um gênero que cresceu bastante, apresentando personagens que ainda hoje fazem parte da cultura popular, como o Batman e Mulher-Maravilha (no lado que viria a se tornar a DC), e Namor e o Tocha Humana original (da Timely, futura Marvel).


Com a emergência da Segunda Guerra, em 1939, vários desses personagens passaram a enfrentar as forças do nazismo, seja no front europeu, seja no combate aos quinta-colunas (simpatizantes e agentes infiltrados) em solo norte-americano, isso anos antes dos próprios EUA entrarem no confronto. Assim, os super-heróis existentes foram transferidos de seus problemas e dilemas urbanos para o cenário da Guerra.


E é aqui que o Capitão América começa a se diferenciar.


Porque, desde sua origem, um jovem e esquálido chamado Steve Rogers que se voluntaria para um experimento ultrassecreto para poder ajudar seu país, o personagem foi pensado por seus criadores como uma forma de crítica/resistência ao nazismo, tanto é que, em sua primeira aparição, o Capitão América está justamente socando Adolf Hitler. Não só isso, ao vestir o personagem com a própria bandeira dos EUA, a dupla Simon - Kirby praticamente traz à tona os elementos de idealismo e patriotismo que enxergam no seu país, elementos esses completamente incompatíveis com o que estava sendo realizado na Europa. Tanto é que o grosso das atividades do Capitão, pelo menos nesse primeiro momento, vai se concentrar em solo americano, justamente no embate com os simpatizantes e agentes infiltrados do regime.


Acho que nunca é demais deixar de salientar o quanto essa é uma visão bem política da situação. Judeus, tanto Kirby quanto Simon viam com preocupação os avanços do nazifascismo na Europa. De fato, a questão do totalitarismo nunca vai abandonar Kirby que, anos depois, viria a criar a saga do Quarto Mundo, onde o grande antagonista, Darkseid, nada mais é do que o fascismo personificado. Assim, o Capitão América surge justamente como uma forma de trazer a visão desses dois artistas, e meses antes dos EUA se posicionarem definitivamente contra o regime e embarcarem na Segunda Guerra como adversários do Eixo (fato que só irá acontecer por conta do ataque japonês à Pearl Harbor, diga-se de passagem).



Montagem com as fotos dos dois criadores do Captião América. À esquerda, Jack Kirby. À direita, Joe Simon.
A dupla de criadores do Capitão América, os quadrinistas Jack Kirby (esquerda) e Joe Simon (direita)

Com a participação norte-americana na Guerra a partir de 1941, os super-heróis como um todo serão transportados para o front, e o Capitão América se encontrará entre eles, naquele que talvez tenha sido um dos seus períodos mais populares.


Com o término da Guerra, o gênero dos super-heróis começa a enfrentar o seu primeiro grande desgaste, à medida em que outros gêneros, como romance, crime e principalmente o terror vão ganhando espaço. No caso do Capitão América, essa crise foi sentida com ainda mais força, visto que, como sempre foi posicionado como um inimigo dos nazistas, o """"""fim"""""" dos mesmos deixou o personagem sem um eixo diretor. Desse ponto em diante, o personagem vai ser usado de várias formas diferentes, como no combate à gângsters, que passariam a ser o mal do momento. No entanto, apesar dos esforços, o personagem não conseguiria manter o mesmo sucesso, ou foco, terminando sua primeira série em fevereiro de 1950, na sua edição de número 75.


Em 1953, a Atlas (novo nome da Timely), tentaria ressuscitar o personagem em duas ocasiões. Na primeira, uma história isolada de 1953, na revista Young Men n.24, e a segunda em uma nova série, esta de 1954, onde o personagem agora enfrentaria os grandes adversários da vez: os comunistas.


Essa série, no entanto, foi um fracasso enorme, sendo cancelada em sua terceira edição.


Isso, por si só, já lança uma luz bem interessante para entendermos o personagem. Mas calma que vamos falar mais sobre isso no próximo tópico, certo?


Após esse fracasso sem precedentes, o personagem permaneceu no limbo editorial, sendo evitado até o momento em que Jack Kirby e Stan Lee o trouxeram de volta para uma jovem Marvel Comics.


Como não poderia deixar de ser após um período tão mal sucedido, o personagem foi apresentado como um teste para ver a reação do público nas páginas de Strange Tales n.114 (novembro de 1963), em uma história do Tocha Humana, desta vez o do Quarteto Fantástico. Nesse conto estranho, o Capitão se apresenta como tendo retornado da aposentadoria, apenas para ser revelado como um impostor e ser derrotado pelo jovem herói flamejante.


Capa original de The Avengers v1. n.4, que mostra a equipe avançando para a ação sendo liderada pelo Capitão América
Capa de Avengers v1. n4, arte de Jack Kirby, George Roussos, Stan Goldberg e Artie Simek

Sendo bem recebida pelos leitores, a dupla, que já havia ressuscitado Namor nas páginas do Quarteto, tratou de reintroduzir o personagem no seu novo universo. Essa estreia aconteceu nas páginas de Avengers n.4 (março de 1964), onde a equipe, envolvida em um confronto com o supracitado príncipe submarino, encontra o Capitão em estado de animação suspensa, congelado após uma queda no Oceano Atlântico.


Agora parte do Universo Marvel, o Capitão América seguiu com os Vingadores, equipe com a qual passaria a ser indissociável, também passando a ter suas histórias nas páginas de Tales of Suspense, em 1964. Nesse novo contexto, suas histórias tenderão a alternar entre flashbacks do tempo da Segunda Guerra e sua inserção no mundo da espionagem enfrentando organizações secretas como a Hydra e a I.M.A. , muitas vezes ao lado de seu antigo aliado dos tempos de guerra, Nick Fury, agora cabeça da S.H.I.E.L.D. Não só isso, começa a entrar na equação os dilemas de homem fora do seu tempo, elemento que o acompanhará ainda hoje.


Quatro anos depois, de sua reintrodução, ele ganhará seu próprio título, nunca mais deixando de aparecer nas páginas das histórias da editora, acompanhando, não só os rumos da Marvel, mas também fatos chave na história do seu país.


E é aqui que chegamos no ponto do nosso artigo.


Mas o que o Capitão América representa?


Cena representando o embate entre duas versões do Capitão América, com a original, Steve Rogers, sendo a vencedora. Arte de Sal Buscema, provavelmente
Capitão América enfrenta Capitão América em arte de Sal Buscema

Desde sua concepção, o Capitão América é um personagem que carrega consigo um forte teor político. De fato, se surgiu como uma resposta da dupla Simon e Kirby às barbáries do nazismo, e se declarando inimigo do regime quase um ano antes da entrada dos EUA no confronto, o personagem encampou uma característica de desafio e contra-cultura que viria a se desenvolver nos anos seguintes, o tornando um personagem que, curiosamente, se revelaria uma voz anti-estabilishment.


Admito que essa pode parecer uma afirmação forte em um primeiro momento, mas vamos prosseguir com uma análise do histórico de publicação para que eu possa fundamentar melhor esse argumento.


Perceba que, a segunda tentativa de trazer o personagem em uma série não obteve nada além do fracasso. Nesse momento, sob a tutela de Stan Lee e John Romita, o Capitão América foi posicionado como um inimigo declarado dos comunistas, isso em um período em que não só o macartismo começava a perder força, como também o país começava a lidar com as consequências da Guerra da Coreia (1950-1953). Assim, por mais que o poder da narrativa da Guerra Fria se fizesse presente, a crítica da população e da mídia, terminaram por criar um ambiente onde o discurso apresentado por esse personagem não se encaixava no cenário cultural vigente.


Essa lição parece ter sido aprendida por Lee, e muito provavelmente reforçada por Kirby, visto que, na reintrodução do Capitão no Universo Marvel, foi evitado ao máximo colocar o personagem em rota de choque direto com o comunismo. Nas histórias de Tales of Suspense em que foi mandado para os confrontos do Vietnã, por exemplo, sua função ali era antes de prestar suporte ás tropas, como atuar no resgate soldados aprisionados, do que de combate propriamente dito. Não que ele não tenha enfrentado seus adversários e vilões russos, afinal, todos os personagens da Casa das Ideias o fizeram em algum momento. No entanto, aquele que ficou encarregado de representar o american way of life e defender o capitalismo não foi o Capitão América, mas antes o Homem de Ferro.


Homem de Ferro enfrenta o Homem de Titânio sobre o Capitólio. Mais que uma luta física, uma luta de ideologias
O Homem de Ferro enfrenta o Homem de Titânio, vilão russo, sobre os céus do Capitólio, numa representação bem clara do embate EUA X USRR. Arte de Gene Colan

Não só isso, como parte do Universo Marvel o personagem recebeu o tratamento da casa, sendo aproximado cada vez mais de questões sociais do momento. De fato, no período envolvendo os anos 1960, ocorreu aquilo que o professor de estudos afro-americanos Adilifu Nama define como o momento onde:


(...)a linha entre o popular e o político foi obliterada à medida em que a cultura pop norte-americana começou a deixar de lado seus impulsos escapistas e a lidar de frente com as questões raciais que o país estava experienciando (Edwards, p.4, 2022)

No caso do Capitão, essas pautas vieram, ao menos em um primeiro momento, através das pautas de integração racial e feminina. De fato, já nos tempos de Tales of Suspense, o personagem irá contracenar não só com Sharon Carter, que será seu interesse romântico, como também com uma série de agentes femininas que formarão um braço importante da S.H.I.E.L.D.. Da mesma forma, será nas páginas do título próprio do personagem, mais especificamente na edição 117,1969), que teremos a estreia do Falcão, o primeiro super-herói afro-americano da Marvel (Edwards, p.6), com quem irá dividir o título da revista pelas próximas 100 edições, no intervalo entre 1971-1978.


Assim, nessa sua nova fase na Casa das Ideias, o Capitão América começa a ganhar um caráter de integração, valendo-se da ideia da "América" como um país formado pela união de diferentes povos. Ainda que fosse uma abordagem amplamente utilizada pela editora, com o Capitão, a questão ganha um outro nível de ressonânica pois, como explica Edwards:


(...)devido ao nome, popularidade e origens relacionados à Segunda Guerra Mundial, o Capitão América parece simbolizar o patriotismo e os ideias norte-americanos de forma mais acentuada que os demais super-heróis. Colocar um personagem negro ou feminino junto do Capitão seria o mesmo de oferecer a imagem de uma América (sic) integrada." (p.6)

Esse caráter de união e integração permanecerá com o avançar dos anos, com a inclusão de outras minorias como populações LGBTQIA+, e imigrantes, sendo essa um dos pilares nos quais o personagem irá se apoiar com o avançar dos anos de publicação.


Um segundo elemento de vital importância para a construção do personagem virá de sua relação com o patriotismo e idealismo de seu país, uma vez que tanto Steve Rogers quanto o Capitão América, no universo dos quadrinhos, não representam, necessariamente, os EUA, mas antes, a ideia do que o país deveria ser.


Admito que esse conceito pode parecer bem sutil, mas calma que já vou elaborar mais.


Uma breve nota antes de continuarmos:

E antes de prosseguir, já deixo aqui observado que isso não excluí, de maneira alguma, o papel de propaganda que a indústria de entretenimento tem, e que não podemos apenas absorver a leitura de uma forma acrítica. Afinal, o simples fato do personagem se chamar Capitão América e se vestir com a bandeira de um dos vários países que constituem o continente americano já é o suficiente para apresentar a visão bem norte-americana de que a América se limita aos EUA. Esse, claro, não é o caso. Mas vamos lembrar que a cosmovisão norte-americana não é o ponto aqui, e que esse tópico por si só daria um artigo que foge bastante de minha área de atuação.


Perceba, o Capitão América atua no sentido de um patriota legítimo. Isso quer dizer que ele não é pautado por governos ou agentes políticos, que terão suas próprias agendas. Antes, o personagem se guia por uma visão do mito de fundação dos Estados Unidos, que seria um país de "igualdade e justiça para todos", atuando não só em termos de defesa nacional, mas também de social, em particular daqueles que são a base do país. E é essa a mola propulsora do personagem, e a ideia que ele irá representar como símbolo.


Capa de uma edição do Capitão América, onde o mesmo aparece ao lado do Falcão e do Pantera Negra, pulando pelos arranha céus de Nova York
Detalhe da capa de Captain America and the Falcon v1. n1 171. Arte de John Romita, Tony Mortellaro e Gaspar Saladino

Quando criado por Kirby e Simon, o Capitão entrou em confronto direto com os nazistas que, apesar de não serem ainda inimigos oficiais do seu país, traziam uma visão supremacista e racista que contradiziam esse "ideal norte-americano". Na sua reintrodução na Marvel, o personagem irá encampar embates pela igualdade racial e de gênero, sendo uma das portas de entrada para a inclusão de minorias, e isso anos antes dos X-Men assumirem esse papel. Tudo em função da ideia de que seu país era um espaço de igualdade.


Essa visão idealista também permitirá que o Capitão América vire tanto um personagem de questionamento quanto termômetro de seu país. No primeiro caso, talvez o exemplo mais claro venha após o estouro do caso Watergate (1972), que levaram Steve Englehart e Mike Friedrich a desenvolver a trama do arco Império Secreto, onde uma grande conspiração se infiltrará no governo, colocando seu líder na presidência dos EUA. Essa crise institucional que afetará irremediavelmente o imaginário coletivo norte-americano fará com que o Capitão abandone pela primeira veste o manto, assumindo a identidade de Nômade.


De fato, esse tipo de choque irá se tornar progressivamente mais frequente nas histórias envolvendo o Capitão, como podemos ver na sua participação na Queda de Murdock, ou mesmo na famigerada Guerra Civil, ainda que eu tenha uma série de problemas com essa maxissérie, e com seu roteirista. Até mesmo no cinema, essa perspectiva do personagem veio a se tornar mais proeminente, como pode ser visto em O Soldado Invernal e no próprio Guerra Civil.


No segundo ponto, temos, por exemplo, a fase de Mark Gruenwald, onde o roteirista irá introduzir uma série de antagonistas para o Capitão onde cada um atuará como um diálogo com as questões que o roteirista via como "problemas nacionais" nos anos 1980, fase que irá gerar vilões que irão dialogar diretamente com as visões e crenças do protagonista, como o Capitão Louco, Ossos Cruzados e o Apátrida. O mesmo, por exemplo, se dará anos depois na fase de Ed Brubacker, onde o grande plano do Caveira Vermelha se dá por meio da exploração do sistema financeiro norte-americano, emulando, nos quadrinhos, os reflexos da crise econômica de 2008.


Colagem que une duas fotos diferentes. À Esquerda, temos foto do roteirista Ed Brubaker. À direita, capa da primeira edição do Capitão América escrita por ele
Ed Brubaker (esquerda), responsável por uma das fases mais elogiadas do Capitão América, cuja capa da primeira edição, você confere à direita, com arte de Steve Epting

Isso não significa que toda história do personagem irá utilizá-lo dessa maneira. Parte de uma indústria marcada pela longevidade e rotatividade das equipes criativas, cada uma delas inevitavelmente trará sua visão para o personagem, marcadas por suas próprias sensibilidades e percepções. Alguns autores, por exemplo, vão tentar ignorar ou deixar de lado esses aspectos, focando-se mais na ação e na aventura. Outros, por sua vez, irão abraçar o aspecto político, ainda que guiando o personagem em uma outra direção.


Dois exemplos bem expressivos disso se encontram na minissérie A Escolha e no arco The New Deal. No primeiro, David Morrell (mais conhecido como criador do Rambo), decide adotar a visão oficial do governo Bush de uma Guerra ao Terror nos idos anos 2000, roubando ao Capitão América seu elemento mais crítico. Na margem oposta, o começo da fase de John Ney Rieber, situada na mesma época, tenta trazer uma reflexão e um posicionamento político sobre a política externa norte-americana, ainda que não consiga se decidir por qual tom deseja assumir, ficando presa no meio do caminho entre uma crítica e um afago ao país ferido pelos ainda recentes atentados de 11 de setembro.


De um modo ou de outro, porém, não há como negar que o Capitão América termina carregando consigo o papel de um símbolo. Agora, se sua força simbólica é ou não bem aproveitada, aí já são outros quinhentos.



Um pequeno encerramento em nossa discussão sobre o Capitão América

Capitão América recuperando seu escudo no meio do combate
Capitão América na arte de Chris Samnee

Pois bem, agora que chegamos ao final deste artigo, confesso que terminei me estendendo um pouco mais do que gostaria nele. Ainda assim, espero ter conseguido fazer algum sentindo sobre o papel simbólico do Capitão América.


Decidi trazer essa discussão uma vez que, ainda hoje, essa é uma questão que vira e mexe se torna frequente no meio dos quadrinhos, gerando polêmicas tanto na "mídia especializada" quanto nos debates de leitores. Um caso relativamente recente se encontra na passagem de manto onde o Falcão passou a ser o novo Capitão América, gerando um debate acalorado na Fox News sobre o fato do personagem não representar mais os "ideias norte-americanos".


No entanto, qualquer leitor minimamente atento sabe que esse caso não poderia estar mais longe da verdade.


Particularmente, essa é uma das características que mais me fascinam no personagem. Apesar de ser um militar, o Capitão América se sedimentou no Universo Marvel como um representante de uma perspectiva liberal, sendo representando não só como um artista, mas também como alguém que oferece abertamente espaço e apoio à minorias e grupos marginalizados, e sempre sendo o primeiro a fazer frente a conservadores e outros grupos extremistas, principalmente quando esses grupos estão em posições de poder como no governo.


E isso, nas mãos de um equipe habilidosa, é pano para muita história boa.


Esse artigo, claro, foi apenas uma ponta para dar início a toda essa discussão em torno do personagem, então peço que não o veja como uma opinião definitiva ou absoluta, certo? No futuro, posso até retornar e acrescentar mais coisas, ou mesmos desdizer outras. Até lá, esta é a visão que tenho no momento sobre o assunto.


Mas agora, quero saber de você: concorda com as ideias do artigo? Tem alguma opinião complementar, ou mesmo divergente? Comenta e vamos dar prosseguimento à esse detalhe.



Então, referenciei e citei alguns livros e quadrinhos no post de hoje. Algumas delas foram lançadas pela Panini e você pode encontrá-las fácil nos links que separei abaixo. Lembrando que, como são links de afiliados, ao comprar através deles, você estará ajudando este que vos escreve, certo? Então, desde já meu muito obrigado!


O Homem e seus símbolos - Carl Jung

O Senhor das Moscas - William Golding

O Retrato de Dorian Gray - Oscard Wilde


Antes de irmos para os quadrinhos propriamente ditos, já deixo bem claro aqui que não recomendo nem A Escolha nem o Novo Pacto, de modo que, caso você queira adquirir e lê-los, o faça por sua conta em risco. Um outro aviso importante é que esse volume com o Soldado Invernal se encontra no meio do arco, que se iniciou algumas edições atrás, em Tempo Esgotado.


Capitão América - A Escolha

Marvel Essenciais - O Novo Pacto

Marvel Essenciais - O Soldado Invernal


Referências:


Book Riot - Marvel´s first gay couple, Arnie and Michael: a love story

Captain America and social movements: Civil Rights and feminism in Captain America comics from 1968-1989 (TCC)

Desafios da democracia representativa a partir de Senhor das moscas, de William Golding (TCC)

Grupo Luau Cultura - Diferença entre signo e símbolo

Literary Hub - Captain America, our first antifascist superhero

Revista Brasileira de Alfabetização - A compreensão das letras e dos números

Universo HQ - Novo Capitão América cria polêmica política


E antes de dar tchau, queria fazer o convite para que você venha a conhecer minha newsletter, a Curadoria da Meia-Noite, onde a cada quinze dias posto algum texto (bem mais leve que o presente) sobre quadrinhos, literatura e afins. O texto da última semana foi dedicado ao Motoqueiro Fantasma, e você pode conferi-lo por aqui:




Agora sim, até a próxima!

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