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O Lobisomem de Flávio Colin - Resenha:

  • Foto do escritor: Lucas Freitas
    Lucas Freitas
  • 3h
  • 8 min de leitura

E no post de hoje, uma breve resenha do trabalho de Flávio Colin com O Lobisomem, um dos maiores clássicos do terror no quadrinho nacional.


Capa do Omnibus reunindo as histórias de Flávio Colin com o Lobisomem. Na capa, vemos o Lobisomem agarrando um homem pelo pescoço. Ao fundo painéis do quadrinho em um fundo branco


Lá fora, a noite caí, e com ela, vem a agonia. Pouco a pouco, o desconforto começa a tomar conta de seu corpo. Primeiro, ele surge como um leve formigamento. Depois, vem a dor física da mudança. No céu, a lua cheia toma seu lugar, e com ela chega a transformação. Tomado pela dor, você se sente mudar. O homem que você é dá lugar à fera, e assim, você, Jack Russell, se vê dando lugar ao seu alter-ego: o Lobisomem.


Ou será que deveria dizer Tab Russell?


Confuso? Calma que já vou explicar. Mas antes, deixa só apresentar o sumário que vai servir como guia para a leitura do artigo de hoje:



O Lobisomem da Marvel


Então, antes de começarmos a falarmos sobre O Lobisomem do Flávio Colin, é importante que comecemos com um breve contexto.


Reprodução de anúncio de revista sobre o Comic Codes Authority

Durante as décadas de 1960-1970, os comics norte-americanos passaram por um novo boom do terror. Acompanhando uma mudança no cenário cultural, que incluí não só um abrandamento do Comic Codes Authority, órgão responsável pela auto censura do mercado de quadrinhos, como também o grande sucesso das produções da Hammer, o famoso estúdio britânico que deu uma nova vida aos famosos monstros do cinema de terror, uma nova leva de quadrinhos voltados para o gênero começam a ganhar as prateleiras, e com eles, novos personagens passaram a integrar o mundo dos comics.


Assim, é a partir desse período que nomes como Vampirella, Monstro do Pântano, Homem-Coisa, A Múmia Viva, Motoqueiro Fantasma, Drácula e o próprio Lobisomem, o tópico da resenha de hoje, passam a se tornar familiares para o público leitor de quadrinhos.


Tendo aparecido pela primeira vez nas páginas de Marvel Spotlight, título que servia como uma espécie de “teste” para ideias de novas séries e que também apresentou personagens como Motoqueiro Fantasma e o FIlho de Satã, a história de Jack Russell, teve argumento de Roy e Jean Thomas, roteiro de Gerry Conway e arte por Mike Ploog. Após sua estreia na edição 2 do título (setembro de 1971), o personagem apareceria por mais duas edições antes de ganhar seu título próprio, Werewolf by Night, em junho de 1972.


Capa de Marvel Spotlight v1.#2, com a primeira aparição de Jack Russel, o Lobisomem
Fonte: https://marvel.fandom.com/wiki/Marvel_Spotlight_Vol_1, último acesso 18 de fev de 2026, às 19h

Nessa série relativamente longa acompanhamos as desventuras de Jack Russell, vítima de uma maldição que corre no sangue de sua família: a licantropia. Assim, durante a lua cheia, o homem se vê dando lugar ao monstro, que, durante 3 noites, vaga à solta pelas ruas das cidades. Nesse ínterim, acompanhamos as tentativas de Russell e seu elenco de apoio de se livrar da maldição, ao mesmo tempo em que o Lobisomem bate de frente com outros monstros - humanos ou não - que, ou querem usar o poder da fera, ou apenas cumprir sua própria agenda.


Ao todo, a série própria do Lobisomem durou 43 edições, chegando ao fim em 1976. Nesse ínterim, além de apresentar personagens como o Cavaleiro da Lua, ela também ganhou bastante popularidade no Brasil, quando foi publicada pela Bloch.


E aqui vamos para o segundo ponto de nosso texto.


O Lobisomem na Bloch


Nos anos 1970, os direitos de publicação da Marvel no Brasil pertenciam à Editora Bloch, que passou a ser a responsável pelos títulos da editora, mas não se limitando apenas aos super-heróis. Pois, ao adquirir os direitos de publicação da Casa das Ideias, a editora havia adquirido também o universo de terror da mesma.


Assim, surgiu o selo Capitão Mistério, casa dos títulos de terror da Bloch que, além dos personagens com título próprio, como A Múmia Viva, Drácula e o Lobisomem, passou a publicar também as histórias curtas de outros títulos da editora norte-americana, como o Tower of Shadows e o Chamber of Darkness, por exemplo.


Iniciadas em 1976, a leva inicial de títulos sob o selo incluía o Aventuras Macabras, Cine-Mistério, Clássicos do Pavor, Histórias Fantásticas, Lobisomem, A Múmia, Frankenstein. Mais tarde, novos títulos como Capitão Mistério Apresenta Sexta-Feira 13 seriam adicionados a esse rol inicial.


Montagem com algumas capas da série Capitão Mistério, da Bloch. Entre elas, o Lobisomem
Montagem feito por este que vos escreve a partir das capas disponibilizadas no site Guia dos Quadrinhos

Mas, por ora, vamos nos ater a publicação do Lobisomem, sim?


Capitão Mistério Apresenta: Lobisomem começou a ser publicada em fevereiro de 1977, e trazia o modelo tradicional de mix da Bloch: as histórias do personagem da Marvel, matérias sobre filmes, uma HQ brasileira (como geralmente acontecia) e uma outra história de terror (neste caso, uma adaptação de um conto de Robert Bloch) de um dos títulos de antologias da Marvel. A revista seguiu nesse mesmo modelo até sua edição 13, de dezembro de 1978. Nesse número, a revista passa por uma série de mudanças.


Porque, se você fez as contas, deve ter percebido que o título norte-americano Lobisomem já havia se encerrado há pelo menos dois anos,o que representava um problema para a Bloch, que começava a ficar sem materiais para a republicação no Brasil. E, como desgraça pouca é bobagem, é em fins dos anos 1970 que a editora perde o direito de uso das licenças da Marvel.


Isso foi um golpe pesado para a editora, visto que os títulos de terror da Bloch vendiam bem e, dentre eles, o Lobisomem era um de seus carros chefes. Assim, para não perder o filão, os editores tomaram uma iniciativa tanto ousada quanto original: manter a revista e as histórias, mas mudando a equipe criativa e os personagens. Esse processo vai se espalhar pelos outros títulos da editora, que trará obras como a Múmia Viva do Rubens Francisco Lucchetti e do Júlio Shimamamoto e a obra de que vamos falar hoje: o…


O Lobisomem do Flávio Colin



Como disse antes, a edição 13 do Lobisomem foi marcada por grandes mudanças..

Primeiramente, o protagonista original, Jack Russel, dá lugar ao seu equivalente brasileiro, Tab Russell, ao mesmo tempo em que a equipe criativa formada por Doug Moench e Don

Perlin (o artista “atual” da série norte-americana) é substituída por Flávio Colin (1930-2002), que assumiu a arte, e possivelmente os roteiros da revista, ainda que esse ponto seja um tanto quanto nebuloso, sendo ele o responsável pelas maiores mudanças da série.

Em termos de história, a estrutura se mantém bastante próxima ao modelo do Lobisomem à Noite,onde:


  1. Nosso protagonista é assombrado pela sua maldição e procura por modos de se livrar dela;

  2. Em determinado ponto da jornada, o protagonista encontra uma solução que termina se atrelando a um problema maior, geralmente um monstro (de natureza humana ou não);

  3. No meio do conflito, a maldição do Lobisomem termina sendo uma carta na manga que salva todos;

  4. Jack Russell fica livre para vagar por mais uma noite de lua cheia, e ser atormentado por isso;


No entanto, na versão brasileira, não possuímos um senso de continuidade tão firme quanto na versão norte-americana. Aqui, cada história vai funcionar de modo bem episódico, começando e se resolvendo nela mesma, e sem carregar qualquer tipo de senso de continuidade.


Ainda assim, temos dentro dessas histórias algumas diferenciações importantes. As principais, sem sombra de dúvidas, estão nas temáticas. Sequências como a da prisão e tortura de Tab Russel pela polícia (em Sequestro Sangrento), por exemplo, é um cenário tipicamente brasileiro, principalmente devido à conjuntura política da época. Da mesma forma, a instâncias de sexo, ou mesmo o modo como nosso “herói” tende a ser um pouco mais cruel e sádico com relação à sua maldição do que seria de se esperar, tirando proveito dela para se vingar de seus inimigos (Trem do Pavor), são inclusões genuinamente brasileiras para o legado do Lobisomem.


Mas claro que as adições não terminam por aí. Afinal, falar de Flávio Colin é falar também sobre arte.



o Lobisomem de Flávio Colin luta contra jacarés nos charcos do pantanal

Se na Marvel os artistas seguiam um estilo clássico de arte, pouco se desviando desse modelo tradicional, o Lobisomem de Colin segue um caminho completamente diferente. Dono de um traço bastante estilizado, o artista garante ao seu monstro um ar próprio e genuinamente brasileiro, em narrativas que explodem de vida e ação, tendo, muitas vezes, o ritmo de um filme, com combates que vazam para fora dos quadros com a violência do homem lobo.


E violência é um tema que também se destaca nessa versão. Com mais liberdade artística do que os norte-americanos, vítimas da censura do Comics Code, Colin dá plena vazão à violência do Lobisomem, caprichando em combates que terminam em desmembramentos e assassinatos brutais. Da mesma forma, fiel à tradição brasileira do terror, o artista também recheia suas histórias com sexo e sensualidade, povoando as histórias do homem fera com a presença de mulheres voluptuosas, ora algozes ora vítimas, explorando assim, todos os recursos ao seu alcance para cativar a imaginação e atenção do público alvo de suas histórias - adolescentes, em sua maioria.


Por fim, encerrando a série de mudanças, temos aquela que talvez seja a mais interessante no caso em questão: a mudança de ambientação. Se o Lobisomem americano tinha suas aventuras baseadas nas grandes cidades norte-americanas, sua contraparte brasileira é lançada em um cenário bem mais reconhecível para nós latino americanos. Baseando seu homem fera no Paraguai, quando mais específico na cidade de Assunção,  Colin, ao mesmo tempo em que mantém o senso de “distanciamento” e “diferença” de sua história, nos apresenta também a cenários bem mais próximos do nosso imaginário sul americano, e, por que não, brasileiro, como a praia, as vilas ribeirinhas, os circos mambembes e as florestas, tornando a leitura do seu Lobisomem quase um processo de reconhecimento, garantindo uma verossimilhança e proximidade a um tema que, no geral, seria inverossímil.

Pois, mesmo quando baseia suas aventuras nas cidades grandes, há uma tal latinidade em seu desenho, em sua apresentação de mundo, que é praticamente impossível não reconhecer o Brasil em sua arte, retomando, aqui a conversa imaginária entre Marco Polo e Kublai Khan imaginada por Italo Calvino.


O Lobisomem de Flávio Colin enfrenta uma onça nas florestas da América do Sul

Assim, acredito que seja essa a forma mais precisa de descrever a experiência de leitura do Lobisomem de Flávio Colin. Como um todo, a obra reflete constantemente esse processo de aproximação. Em um movimento praticamente antropofágico, o artista pega o modelo original norte-americano e o replica, adaptando-o e alterando-o para o contexto brasileiro, gerando uma obra que, por mais que receba influência estrangeira, consegue ser autenticamente brasileira, entregue em um ritmo cinematográfico.


Se você ficou curioso para ler essa experiência, tenho ótimas notícias para você! Hoje, as edições do Lobisomem de Flávio Colin se encontram reunidas em um único volume, o omnibus da Tábula Editora intitulado A Saga do Lobisomem, em um resgate histórico de altíssima qualidade.


Ficou curioso para conhecer mais sobre essa Saga, então aproveita para adquirir o quadrinho na Amazon pelo link abaixo:

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Referências:









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