Linha Direta - Conto
- Lucas Freitas

- há 11 minutos
- 10 min de leitura
Um conto de terror envolvendo um velho conhecido das ruas brasileiras: o orelhão.

Nesse ano de 2026, teve-se início à retirada dos orelhões de nossas ruas. Se você é novo demais para ter conhecido uma dessas peças, o orelhão era um telefone público, que você podia utilizar, tanto por meio de fichas quanto, posteriormente, por meio de cartões. Criados numa época em que os telefones ainda eram bastante caros - e os celulares ainda nem existiam - essas pequenas pérolas do paisagismo urbano foram criados pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira (1941-1997) e se tornaram uma peça bem conhecida de nossas ruas.
Um marco da cultura popular, os orelhões se tornaram uma verdadeira referência brasileira, e foi a partir de um deles que escrevi um conto de terror chamado Linha Direta. Neste conto, temos um orelhão desempenhando um papel bem curioso, e que você vai descobrir logo mais.
Se você já acompanha minha newsletter, já deve ter lido esse conto por lá. Se não, sinta-se à vontade para ler esta pequena história que escrevi em 2019 para a clássica antologia da Lendari, Creepypastas: Lendas da Internet - Volume 2 (e que hoje se encontra fora de catálogo).
Certo, sem mais delongas, vamos para o conto!
Linha Direta
Lucas Freitas
[Transcrição da fita de 1111B – Marcus Furtado, O Orelhão de Santa Rosa, parte do acervo do Dr. David Isaac Gadelha, datada de Março de 1999. Parte de seus estudos sobre a cidade de Santa Rosa do Amaral, na Paraíba, a fita, assim como vários outros papéis, foi encontrada nos arquivos particulares do doutor, mas sem o devido tratamento característico de sua obra. Ainda assim, é natural supor, por sua temática, que ela seria usada no seu último trabalho, o Superstições no Brasil Moderno, infelizmente inacabada.]
Então, você quer saber da história do orelhão? Hahahaha...Desculpa….desculpa, mas faz tanto tempo que não ouvia falar nisso. Tipo, era uma coisa que a gente contava quando era criança, sabe? Pra assustar os amigos e tal. Nunca imaginei que um doutor pudesse se interessar por algo assim. Mas o que você quer saber, exatamente? Ah, a história toda? Beleza, Beleza….não, não, eu posso te contar, sem problema. Quer dizer, até onde eu me lembro dela.
Então, ela é mais ou menos assim:
Lá em Santa Rosa, a gente tem essa praça no centro da cidade, sabe? É uma praça normal, parecida com todas as outras pracinhas de interior. Tem umas árvores grandes, uns banquinhos nas laterais, um parquinho num extremo e, bem no centro, uma estátua em homenagem à Santa Rosa. Bem grandona, toda colorida. É bem bonita. Quase sempre alguém deixa umas velas pra ela...ou flores...mas eu tô fugindo do assunto, né? Desculpa.
Certo, lá na praça, também tinha um orelhão. Acho que foi o primeiro...ou um dos primeiros, a chegar na cidade. Não lembro bem de quando colocaram ele, mas eu lembro dele já estar lá quando eu era menino. Mas isso não é importante pra história, né? Bom, esse orelhão ficava no outro lado da praça, quase de frente pra Santa, e meio que de frente pro parquinho também. Apesar de ser bem acessível, só tinha umas escadas que levavam pra ele — não era nada muito grande, só uns dois ou três degraus que tinham na praça, só Deus sabe a razão. Mas ninguém usava aquele orelhão.
Porquê? Eu não sei. Digo, gente era o que mais tinha naquela cidade, mas todo mundo sempre reclamava que ele nunca funcionava. Nunca dava linha, engolia uma ficha lessa. E o teclado dele era ruim de usar. Muito duro. As crianças não conseguiam apertar. Até os adultos não conseguiam usar ele direito. Lembro duma vez em que o Seu Tuca tentou usar o bicho. Seu Tuca era um homem gigante, forte feito um boi. Trabalhou a vida inteira na roça, saca? E tinha aquela força que só um roceiro tem. Mas até ele penava para usar aquele troço. E, se ele penava, o que dizer dos outros? Preferiam procurar o orelhão do armarinho. Ou o da igreja. Mesmo sendo mais distantes, aqueles sim sempre funcionavam. Ou, pelo menos, não davam problema.
O quê? Não, não tinham quebrado ele, pelo menos não até onde desse para saber. Ele deve ter levado uma bolada ou outra quando a gente batia linha...O que é linha? É meio que os pênaltis, só que sem o jogo. Uma fila de menino se junta, um fica no gol, e outros dois batem. Se o goleiro pega, ele fica no lugar de quem chutou e quem perdeu o chute vai pra fila. Se a bola entra, continua tudo igual e entra o próximo da fila no gol. Eu não gostava muito de ser goleiro. Tinha medo da bola. Mas então, o máximo que eu já vi acontecer naquele orelhão foi levar uma bolada ou outra, mas nada que desse para quebrar. Até porque, a gente nunca tinha tentado quebrar nada. E mesmo que quisesse, não dava. Tinha sempre uma ou outra velha naquela pracinha, e cê sabe como é cidade de interior, né? Todo mundo conhece todo mundo. E se alguém pegasse a gente fazendo esse tipo de coisa….vixi, aí a gente tava lascado. Com sorte, pegava um castigo. Mas no geral era surra de cinto.
Mas então, outra coisa estranha é que eu nunca vi aquele orelhão receber chamada. Digo, eu só passava lá uma parte da tarde, as vezes de manhã, indo pra escola, mas nunca via o bicho receber nenhuma ligação. Tinha gente que dizia que ouvia. Geralmente, era o povo que andava pela tardinha. Ou na noite alta. Ou até na madrugada. Tinha uns velho que dizia que de madrugada, aquele troço não parava de tocar. Tocava e tocava e tocava, quase como se fosse o sino do fim do mundo, eles diziam. Mas eles não tinham coragem de atender, e só se benziam e passavam reto. Por quê? Não sei. Nunca ouvi o toque. Mas eles diziam que era um toque estranho, sabe? Era um som que fazia gelar os ossos...que mergulhava o mundo num silêncio e que, mesmo vindo de perto, parecia vir de longe, muito, muito longe. Mas não parecia vir dali. E quando tocava de madrugada….ah, aí era pior, porque o som quebrava o silêncio, e parecia que nunca mais ia parar. Ficava ecoando pelas ruas, pelas paredes, pelos ouvidos...até pela alma de quem ouvia, mesmo depois que o Sol já tinha nascido. Era um som horrível, diziam, um som que perseguia e acompanhava, e não era difícil que quem ouvisse aquilo ficasse doente depois.
Ou, pelo menos, era isso o que eles me contavam sempre.
Ou o que todo mundo contava.
Mas enfim….
Como eu tava dizendo, ninguém nunca teve coragem de atender o telefone. Nem criança, nem adulto, nem velho. Nem o padre tinha coragem de chegar perto daquilo. E se você tivesse ouvido as histórias que ele contava sobre o que já tinha feito ou por onde tinha passado, rapaz, cê ia ficar surpreso e assustado com aquilo. Nem mesmo os bêbados conseguiam chegar perto da coisa. Teve um que tentou, sabe? Só que ele tava trêbado. Chegou zonzo no orelhão, quase caindo, mas mal encostou no telefone, e ficou sóbrio de novo. E aí, ele saiu correndo e se benzendo, como todo mundo. E nunca mais voltou a beber. Ou é o que dizem. Eu mesmo nunca conheci a figura.
Mas tipo, tá conseguindo entender aonde eu quero chegar? Ninguém nunca tocava naquele troço. Isso é, até o dia em que o...o...porra, qual era o nome dele mesmo? — Ah, Bernardo! — até o dia em que o Bernardo atendeu a ligação. Ele era um garoto da vizinhança. Nunca conheci ele muito bem, era um pouco mais velho do que eu na época, e andava com os garotos grandes. Em 90 eu acho que tinha uns 14 ou 15 anos, uma coisa assim. Só que como ele era muito alto, parecia ser mais velho. Tinha um cabelo loiro e grande, e uns olhos azuis.
A gente dizia que era alemão, só de sacanagem...
Enfim, um dia esse garoto teve coragem de atender. Não foi bem coragem, foi meio que culpa duma aposta. Os outros tavam tirando onda com a cara dele, sabe, e ele queria provar que não era frouxo. Puto da vida, ele tinha desafiado os outros primeiro, dizendo que, se eles eram assim tão macho, porque não iam atender o telefone quando ele tocasse. Até aí, beleza. Só que aí, um dos outros garotos devolveu o desafio pra ele. Aí o bicho não tinha mais o que fazer. Ou ele ia e atendia a chamada do orelhão, ou ficava marcado pelo resto da vida como frouxo. Foi por causa disso que ele se levantou quando ouviu o primeiro toque, e foi só por causa disso que ele começou a caminhar na direção do orelhão. Todo mundo que viu disse que ele não tava bem. Tava branco feito cera e tremia feito vara verde. Fora isso, ele tava suando muito, quase parecia que tinha tomado banho de tanto suor que escorria. Mas isso foi o que me contaram, né? De qualquer forma, ele começou a andar, e tipo, o orelhão lá, tocando e tocando pela noite. E enquanto isso, ele dava um passo, e depois outro, e mais outro, até que, finalmente, tremendo, ele chegou no troço.
Aí, ele levantou a mão direita, e segurou o telefone azul.
Tremendo, ele tirou o telefone do gancho e levou até a orelha.
E aí, ele esperou.
Ninguém sabe quanto tempo ele ficou ali, parado, com o telefone no gancho. Alguns dizem que foram horas. Outros, que não passou de um dois minutos. O que todo mundo concorda é que, depois de um tempo, ele colocou o telefone de volta no gancho e voltou pra junto dos amigos. Só que ele tava diferente. Tinha alguma coisa nos olhos dele, eles disseram. Era quase como se a luz tivesse se apagado...e ele não tava falando. Na verdade, o bicho tava tremendo, e tava frio feito um bloco gelo. E era uma noite de verão! Os outros garotos ficaram apavorados, saca? Mas não conseguiram fazer nada. Tentaram falar com ele e tal, mas ele não respondia. Até o melhor amigo dele ficou sem resposta. Porque ele não respondia nada, nadinha. Depois de um tempo, decidiram chamar os pais deles, pra ver se eles faziam alguma coisa pelo coitado.
Mas nem os pais deram conta. Desde o primeiro instante, eles estranharam aquilo. Porque ele era um menino que falava muito e não parava quieto. Mas lá teve ele, calmo, manso feito um cordeiro. E frio. Gelado. E calado. Completamente calado. Não respondia nem quando o pai ameaçou bater nele. Na verdade, tudo o que fez foi virar a cabeça e olhar pro pai, e só. Não disse nada.
Na verdade, nunca mais disse nada, porque, dois dias depois, ele morreu.
Ou foi o que me disseram. Por quê? Ninguém sabe. Os médicos não acharam nenhum motivo pra ele ter morrido. O garoto tava bem. Era forte e saudável. Então como é que ele podia ter morrido? Ninguém sabia. Isso é, ninguém fora a gente. Porque a gente tinha certeza da causa da morte de Bernardo. Aquilo tinha sido culpa do orelhão. O que quer que ele tenha ouvido ali, foi o que matou ele. Depois disso, ninguém nunca mais teve coragem de atender aquela chamada. E até hoje, ainda dá pra ouvir o orelhão tocando na praça, seja na hora que for. Mas todo mundo que ouve, passa direto. Nem pensa em parar para atender aquela chamada…
[Fim da Gravação]
[Transcrição de fita 140050 – gravação pessoal do Dr.David Isaac Gadelha, Datada de Novembro de 1999. A presente transcrição pode ser encontrada no volume 10 da série Diários, editados de forma póstuma, em 2010]
Quase meia noite. O orelhão não demonstrou o menor sinal de ainda estar funcionando. Até agora, essa viagem está se revelando como um grande desperdício de tempo. Não de todo inútil, porém. As fotos e os relatos que consegui recolher foram bastante interessantes, mas nada que justificasse uma viagem de quase seis horas de carro. Francamente, ainda não sei o que esperava encontrar aqui. Por mais que me envergonhe nisso, creio que posso ter me deixado levar pelas histórias. Ainda assim, eram tantas, e tão perfeitamente iguais, que era impossível não ficar admirado. Nunca em todos esses anos eu vi, ou ouvi, uma história manter uma uniformidade tão grande — até mesmo nos nomes — como essa do orelhão.
Não, eu precisava conhecer esse lugar.
Agora, porém, não posso deixar de pensar no quão decepcionante isso tudo foi. Meu Deus, já foram quase 8 horas de espera aqui…Meu grupo deve estar ficando preocupado. Minha esposa também. Eu devia ter voltado antes e ligado, explicado o que estava para fazer.
Mas acho que agora é tarde demais para pensar nisso. Mas não é tarde demais para voltar at...
[Nota da edição: Nessa hora, o toque de um orelhão pode ser ouvido claramente, ainda que distorcido por conta da qualidade do gravador. O que se segue depois é incompreensível, uma vez que o som do telefone se sobrepõe à fala do Doutor Davi. Ainda assim, é possível entender algumas exclamações, como “Meu Deus”, ou algo como “É igual! É igual!” Depois disso, a ligação permanece em silêncio por alguns segundos, sendo interrompida pouco depois de ouvirmos o som de algo sendo tirado do gancho. Depois disso, apenas sons desconexos e sussurros até que a fita se interrompe bruscamente, talvez devido à alguma queda. Uma frase, porém, pareceu ser ouvida por toda a equipe que trabalhou com o material, e, ainda que alvo de debate, boa parte da equipe de produção poderia jurar que ouviu o nome do professor ser mencionado pelo menos uma vez.
Curioso, notar, porém, que este é o último registro feito pelo Doutor Davi, e que, pouco mais de três ou quatro dias depois daquilo, sua morte foi anunciada, tal qual as quase 15 relatos que ele recolheu de moradores de Santa Rosa do Amaral em diversas localidades do país.]
Bem, o post de hoje um tanto quanto mais curto, visto que era um conto, mas espero que tenham gostado.
Aproveitando que estamos falando sobre minha produção, deixo aqui o link para que possam conferir minhas outras produções literárias, aqui neste mesmo site:
Além disso, aproveito para deixar aqui também um artigo onde entrevistei o Mário Bentes, escritor, editor e CEO da Lendari Entertainment, sobre o lançamento da nova versão da antologia creepypastas (e que também tem um conto meu):
Lançamento: Creepypastas 1.1 + Entrevista com Mário Bentes
Assim como o convite para que você venha conhecer minha newsletter, a Curadoria da Meia-Noite, cuja última edição é dedicada ao filme A Noite do Espantalho (1981):
Por fim, e já que estamos aqui, já te falei que lancei meu primeiro livro solo, o Música da Noite?

Publicado pela Urutau, o livro reúne oito contos de terror, todos baseados no folclore brasileiro. Nele, você vai encontrar algumas figurinhas carimbadas, como o Boto e a Mula Sem Cabeça, mas com aquele pequeno porém que deixa a coisa diferenciada.
Você pode adquirir seu exemplar no site da própria editora, vulgo link abaixo:
Editora Urutau - Música da Noite
E por hoje é só!



Comentários