Entrevista com o Vampiro - Resenha:

Já entrando em clima de Halloween, começamos nossos trabalhos com uma resenha do clássico livro de Anne Rice, Entrevista com o Vampiro

Saudações!
Vejo que já faz um tempo desde que conversamos por aqui, não? E para matar as saudades, e já começar as preparações para o Dia das Bruxas, trago aqui a resenha daquele que é, sem sombra de dúvidas, um clássico moderno: Entrevista com o Vampiro.
Publicado originalmente em 1976, o livro marca a estreia de Anne Rice (1941-2021) como autora, assim como o começo de uma saga que irá de desdobrar em pelo menos 12 volumes ( e isso caso não levemos em conta as séries paralelas, como as Bruxas de Mayfair, que também possuem uma extensão considerável).
Caso nunca tenha lido o livro, ou visto o filme - ou a série - Entrevista com o Vampiro apresenta a história de Louis de Pointe du Lac, um vampiro de cerca de 200 anos que narra a história de suas vidas, tanto a mortal quanto a imortal, para um jovem repórter, de onde vem o título do livro. Ao longo dessa entrevista, vamos conhecendo mais sobre Louis e seu passado como um rico fazendeiro de Nova Orléans até sua transformação em vampiro por Lestat e os eventos que se sucedem nessa nova vida.
Daqui, já preciso dizer que o fato da história nos ser apresentada em primeira pessoa é um dos verdadeiros trunfos deste livro, ainda que venha a se tornar uma faca de dois gumes à medida em que avançamos na leitura - mas vamos por partes, sim?
O lado bom de Entrevista com o Vampiro Então, já de saída, preciso dizer que a ideia de colocar Louis, o próprio vampiro, como narrador de Entrevista com o Vampiro, é uma ideia genial por parte de Rice.
Com ele, ganhamos uma narrativa que coloca a criatura como principal foco da história, nos apresentando, assim, não só seu mundo interior, mas também toda uma gama de questionamentos éticos e morais com o que ela se depara. Porque, por mais que seja um vampiro, Louis foi um ser humano, e um criado no seio de uma família católica, o que lhe confere uma visão de mundo bastante demarcada pelo conceito de certo e errado, e, não menos importante, culpa.
De fato, dentre todas as sensações e emoções do espectro humano, a culpa é a que mais acompanha nosso protagonista. Sua própria transformação em vampiro, por exemplo, se dá por conta da culpa que sente pela morte do irmão. Da mesma forma, é a culpa que lhe acompanha por boa parte de sua jornada, visto que, para sobreviver, ele precisa tirar a vida de outra pessoa. Toda essa dinâmica vai se apresentar com contornos bem emocionalmente densos, de modo que podemos ver o quão sofrido é o processo de simplesmente viver para Louis, o que confere ao vampiro uma profundidade até então bem pouco explorada na ficção.

Não só isso, é sob o foco da culpa e da não aceitação que acompanhamos toda a história de Entrevista com o Vampiro, visto que nosso protagonista se encontra preso entre seu passado de humano e sua nova condição de morto-vivo, em um jogo que simula bastante a própria situação do vampiro, que precisa, ele próprio, obedecer a um conjunto de regras extremamente específicas e limitadoras, se tornando um refém da própria condição. Nesse contexto, a personalidade bastante reflexiva e a natureza ensimesmada do personagem vão produzir uma paisagem interna riquíssima, servindo de base para a discussão de temas como a imortalidade, a dessensibilizarão perante o horror, a perenidade da vida e da beleza, os confrontos entre desejos e culpa, criando assim um quase estudo de ética do ser vampírico e da própria imortalidade - e tudo isso envolvido em um por um poderoso sentimento de vazio existencial que permeia cada página do livro.
De fato, Entrevista com o Vampiro nos entrega um universo bastante opressivo e sem esperança, visto que é tomado por um vazio existencial que envolve até mesmo suas criaturas fantásticas. Pois, por mais que elas existam, nunca temos uma resposta para o porquê disso. Além da ausência de uma resposta, os vampiros não possuem uma mitologia, um sistema de crenças ou nada, enfim, que possa conferir qualquer senso de propósito maior à sua nova vida. Assim, Rice os coloca num patamar bastante próximo ao dos seres humanos que, por mais que convivam com essa mesma angústia, ainda possuem, a seu favor, o benefício da morte para encerrá-la. Soma-se a isso o fato de que o sobrenatural de Entrevista com o Vampiro é algo bastante escasso, de modo que não vemos magia ou qualquer criatura para além dos vampiros, aumentando ainda mais a ironia de sua situação que, sem nada além deles como régua de algo além, se vem largados em um mundo sem Deus ou Diabo que possam amparar seus receios, assim como sem a perspectiva de qualquer coisa mágica ou estranha que possa assombrar os seus dias.
Esse vazio se reflete também no modo como a autora apresenta os hábitos vampíricos ao longo do livro. De fato, diferente de Louis, boa parte das criaturas parece carregar um tédio e uma empáfia pela existência que vai, gradualmente, os conduzindo ou para o sadismo ou para um estado de dessensibilização eterna, de modo que a única forma que eles terão para afirmar a própria sobrevida é por meio da dor e sofrimento que causam. Um exemplo bem claro nesse sentido se dá com a representação da mordida, e de todo o processo de alimentação dos vampiros, que aqui é apresentado de modo bastante cru e bruto, privando-a do glamour semierótico do cinema e mostrando aquilo como realmente é, um ato de caça, que apenas reforça a culpa de nosso protagonista.
E já que falamos sobre ele, é importante observar que será essa natureza de Louis, assim como sua constante luta contra esse vazio, que atuará como um motor de seu choque com os demais vampiros com que ele irá interagir. Serão desses confrontos, por sua vez, que o brilho das escolhas de Rice aparecem, visto que é a dinâmica entre os personagens que concede um sabor todo especial à Entrevista com o Vampiro.
Dentre essas dinâmicas, duas se destacam por seu peso e importância na história. A primeira é, sem sombra de dúvidas, o relacionamento entre Louis e Lestat. Responsável pela transformação do nosso protagonista, o vampiro Lestat é construído aqui como uma antítese completa para tudo o que Louis representa. Se em nosso narrador temos um personagem reflexivo e controlado, fascinado por sua busca pela beleza imanente das coisas, seu companheiro segue um caminho oposto. Sendo um vampiro há bem mais tempo que o entrevistado, Lestat possuí uma postura hedonista e uma crueldade incontroláveis, pouco se importando com bens materiais, as pessoas de que se alimenta ou mesmo com aqueles mais próximos de si, o que o coloca, por assim dizer, em uma ponta do espectro mais niilista e sombria da imortalidade. Assim, enquanto Louis pensa e pondera sobre sua condição, Lestat a aceita, mas não sem uma certa revolta, ostentando um comportamento que, sob muitos aspectos, poderíamos considerar como auto destrutivo, se apresentando como o resultado de uma vida imortal que há muito perdeu qualquer tipo de propósito ou sentido.

É por consequência desse comportamento que o relacionamento entre os dois vais se desgastando. Por mais que Louis perceba que, no começo, possuí um fascínio e admiração por Lestat, esse sentimento passa a definhar de modo gradual, porém constante, até o ponto de nutrir uma espécie de desprezo por seu companheiro, com a relação dos dois emulando aquela de um casamento que, começando bem, passa a declinar com o passar do tempo. Assim, Lestat passa a representar também uma personificação para o desgosto de Louis com seu ser vampírico, e a desilusão que os anos de existência vão lhe trazendo, visto que ele não pode mais participar do ciclo normal da vida humana.
Essa desilusão será importante por trazer para o palco o segundo grande relacionamento da história. Pois, para tentar manter a união dos dois, e para ter uma prova de que Louis não é assim tão diferente dele, Lestat transforma Cláudia, uma criança, em vampira, o que nos oferece uma das personagens mais fascinantes e perturbadoras de toda a obra.
Fruto de um relacionamento condenado, Cláudia não mantém as memórias de seu tempo de humana, de modo que é, desde o princípio, um vampiro por natureza. Essa ausência de um passado se revela em uma natureza fria e cruel, talvez mais fria até que a do próprio Lestat, o que a coloca num ponto de exclusão entre os dois vampiros. Mesmo assim, seu relacionamento com Louis é, no melhor dos casos, ambíguo, visto que ele forma um vínculo poderoso com ela, que passa a ser uma espécie de filha e companhia nessa nova vida. Afinal, será em Cláudia que Louis vai encontrar algo próximo de uma companhia para sanar sua angústia existencial, ainda que, com o desenvolver da narrativa, ele perceba que esse não é bem o caso.
Mas aqui, há também um porém.
Presa numa infância eterna, a mente de Cláudia envelhece e se desenvolve, colocando-a em uma condição terrível onde, por mais que seu corpo permaneça como o de uma criança, sua mente, pouco a pouco, vai se tornando aquela de uma mulher adulta, com suas próprias vontades e desejos. Isso não só dará à Cláudia uma autonomia que muitas vezes vai colocá-la em conflito com seus pais, como também lhe dará desejos que ela mesma sabe que jamais serão saciados, e com isso um pacote completo de frustrações, das quais ela tem plena consciência. Esses desejos, por sua vez, são compartilhados abertamente com Louis, e, muitas vezes, são os responsáveis por algumas das sequências mais desconfortáveis de todo o livro, e não vou mentir que talvez sejam alguns dos momentos mais difíceis de se ler.
E esse é um outro elemento que Rice sabe explorar muito bem. Em várias ocasiões, a autora faz questão de deixar os eventos relacionados a Cláudia abertos de um modo bastante ambíguo, provocando um desconforto que vai crescendo a medida em que a narrativa avança, visto que, com o passar do tempo, a vampira vá se reconhecendo como mulher, possuindo, assim, necessidades e desejos que seu corpo não lhe permite saciar. Mas a ambiguidade da narrativa permanece. Em muitos pontos, por exemplo, vemos que Louis se refere à vampira como uma "filha", mas, logo em seguida, ele também a chama de "noiva" ou "parceira". Isso também se reflete nos próprios carinhos e gestos de cuidado do vampiro, que, além dos carinhos como cafunés, dorme com ela no mesmo caixão, ou a beija com uma certa constância, borrando bastante os limites entre o que seriam gestos típicos de uma relação filial e lhes conferindo contornos, no mínimo, estranhos. Não só isso, ainda que não haja qualquer tipo de relacionamento per si, ocorre uma alienação por parte do vampiro, que insiste em prender Cláudia à sua companhia como uma criança eterna, privando-o de sua independência e autonomia.

É no retrato desses relacionamentos disfuncionais que o texto de Rice brilha. Brincando o tempo inteiro com o leitor, usando e abusando das sugestões e subentendidos, a autora amplia a sensação de desconforto, ao mesmo tempo que força o leitor a tomar parte naquele ciclo, visto que cabe a ele preencher as lacunas que a autora vai deixando nas entrelinhas do livro.
Esse processo de não declaração é algo que aparece bastante ao longo de todo o Entrevista com o Vampiro, e que se encontra também na ausência de definição do relacionamento entre Lestat e Louis, por exemplo, o que irá nos permitir levantar a perguntar: até que ponto nosso narrador está sendo confiável? Afinal, como estamos ouvindo a história dele, contada por ele, não temos como ter certeza de que tudo ocorreu conforme ele diz, gerando uma outra camada de desconforto e tensão ao longo de toda a história, uma vez que nada nos garante que ele não possa estar mentindo, ou omitindo, parte do que ocorreu.
E acredito que seja essa junção de fatores que garantem uma boa parte do terror presente em Entrevista com o Vampiro. Presos nesse mundo de desejo e culpa, entre os horrores ditos e não ditos, há uma sensação de decadência e fatalidade em cada página do livro. Com a ausência de um sentido ou de um propósito, viver se tornar apenas um contínuo gesto de dar vazão a mais uma noite de horror. Livres do senso de finitude e de ética, não há limites para o que os vampiros possam fazer, mas essa ausência, antes de ser libertadora, se mostra um cárcere, produzindo um tipo de terror bem particular, mas nem por isso menos terrível.
E essa é, de longe, uma das melhores coisas do livro.
O lado não tão bom de Entrevista com o Vampiro
Agora, vou dizer o oposto do que eu disse antes sobre Entrevista com o Vampiro. Porque, por mais fascinante que seja o fato de termos um narrador tão consciente também traz suas complicações.
Pois, ao mesmo tempo em que podemos ver todo esse universo emocional, Louis também é um personagem bastante sem agência. De fato, muito do livro é passado com ele refletindo ou reagindo às coisas que vão lhe acontecendo. É ele, por exemplo, que assiste à transformação de Cláudia em uma vampira, ele que assiste à mesma assassinar Lestat, é ele que se deixa conduzir para a viagem na Europa...enfim, supondo que o que esteja sendo narrado seja a verdade, temos aqui um personagem que passa mais tempo perdido em suas próprias masturbações mentais do que realmente tomando alguma iniciativa que o permita mudar sua situação, algo que, por mais que se encaixe no dilema da imutabilidade do imortal, termina tornando a leitura bastante arrastada e monótona em vários pontos da narrativa.
Isso tanto é verdade que Rice quase nunca deixa seu vampiro desacompanhado, de modo que as coisas que acontecem em Entrevista com o Vampiro só acontecem porque Louis está acompanhado por outros vampiros, precisando, sempre, de um agente de ação para movimentar sua história e adicionar uma carga dramática que o tire de seu mundo interno.
É verdade que, já no final da história, os papéis de invertem um pouco mas, depois de quase 300 páginas, o cansaço residual já está lá para acompanhar o leitor.
No entanto, dentre todo o livro, acredito que essa foi a única parte que realmente senti que prejudica a obra.
O veredicto final de Entrevista com o Vampiro:

Mas então, depois dessa longa discussão a respeito do livro, imagino que você deva estar se perguntado: "Mas afinal, Lucas, vale a pena ler Entrevista com o Vampiro ou não?"
E a resposta é, sem sombra de dúvidas, um sim.
Por mais que não seja um grande conhecedor de narrativas de vampiro, poucas vezes vi a história ser jogada para a perspectiva da criatura em si, e quando Rice faz isso, ela muda por inteiro as regras do jogo, apresentando uma criatura que não é nem o monstro implacável nem o sedutor irresistível, mas antes algo tão patético que chega a ser bem humano.
Jogado em um contexto de completo vazio existencial, sem propósito, valores ou sonhos, (algo bem próximo do espírito de fins dos anos 1970, e tema recorrente ainda hoje), Louis e toda a prole das trevas se revelam como criaturas que suscitam mais pena do que medo, ainda que o terror e o horror estejam bastante presentes ao longo de toda a história. De fato, essa é uma outra característica bem marcante de Entrevista com o Vampiro, visto que o livro consegue equilibrar bem o terror existencial e o terror provocado pelo vampiro, que, não ironicamente, se alimenta desse primeiro terror, sendo o vampiro, portanto, um ser que precisa da vida de outro para justificar a sua própria.
Se em Paraíso Perdido Adão consegue dialogar com seu Criador a respeito de sua própria criação e as questões que ela traz, os vampiros de Rice podem até se fazer essas perguntas, mas estão condenados a jamais receber qualquer tipo de resposta.
E isso, se me permite dizer, é algo bastante aterrador.
Além dessa humanização do monstro, outro aspecto bastante interessante da obra de Rice está no modo como ela aborda outras questões, como os relacionamentos homoafetivos, os dilemas entre desejo e culpa, conexão e desconexão. Não só isso, a autora também apresenta uma das criaturas mais aterrorizantes da literatura de vampiros na figura de Cláudia, um ser que, por si só, seria pauta para uma série de debates que vão da dismorfia corporal ao grooming. Não à toa, é dela que vem boa parte dos momentos de horror desse primeiro livro.
Assim, acredito que não estou exagerando quando digo que o Entrevista com Vampiro é uma leitura obrigatória, seja você fã de vampiros ou não. Mais do que uma mera humanização, o livro nos apresenta o terror de uma existência vazia, um tema que, ainda hoje, é bem recorrente não só na ficção, mas também no mundo real.
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E já que falamos sobre vampiros, já falei que escrevi um breve artigo sobre o lobisomem brasileiro? Ele saiu em Agosto na minha newsletter, a Curadoria da Meia-Noite, e nele apresento algumas ideias e elementos que tornam essa criatura tão especial aqui no Brasil. Você pode ler o texto na íntegra por aqui:

Por fim, já que estamos falando sobre folclore, aproveito esse ganhco para apresentar o meu livro de estreia: Música da Noite. Publicado pela Urutau, ele reúne oito contos de terror, todos inspirados em mitos e lendas do nosso folclore, com a presença de criaturas como o Anhangá, o Boto, a Mula sem Cabeça e alguns outros mais.
Você pode conhecer mais do livro, assim como adquirir o seu exemplar, no site da própria editora, em:
Editora Urutau - Música da Noite
E não esquece de me dizer o que achou depois, hein?
Até a próxima!



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