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O Espectro, de John Ostrander, ou o peso amargo da vingança

Foto do escritor: Lucas Freitas
Lucas Freitas
há 26 minutos
18 min de leitura

Um breve comentário sobre a fase de John Ostrander à frente do Espectro - e como bônus, uma introdução à longa carreira desse vingador sobrenatural


Detalhe da capa da primeira edição de The Spectre. Aqui, o Espectro, um homem pálido com uma capa verde, se coloca diante do observador. Sua expressão é séria e ameaçadora, e de sua mão emana uma rajada de energia. Às suas costas, temos um crânio formado por incontáveis esqueletos

Bem, e eis que finalmente chegamos em outubro.


E como não poderia deixar de ser, chegou a hora dos posts temáticos para o mês. Esse ano, gostaria de dar início aos nossos trabalhos com o primeiro arco de uma série que acredito ser inédita em terras brasileiras, mas que é, de longe, uma das produções mais interessantes dos anos 1990, pelos motivos que vamos falar neste post.


A série em questão é O Espectro (The Spectre) que foi lançada pela DC Comics entre 1992-1998, com um total de 62 edições e 1 anual. Mas, antes de falarmos sobre essa série, acho que temos alguns pontos que precisam ser discutidos. Afinal, acho que são poucas as pessoas que reconhecem O Espectro de nome, então, vamos começar essa história pelo começo.


E, se quiser ter uma ideia de como vai ser este artigo, segue a nossa tradicional filinha: Mas afinal, quem diabos é o Espectro?


Agora, sem mais delongas, vamos começar!


Mas afinal, quem diabos é o Espectro?


Então, aqui vamos fazer uma breve viagem no tempo para entendermos um pouco mais da história do Espectro. E para isso, vamos começar com um rápido mergulho na história da DC Comics, isso numa época em que ela ainda era conhecida como National Comics.


Aparecendo pela primeira vez nas páginas de More Fun Comics v1. n.52, o Espectro foi criado por Jerry Siegel e Bernard Bailey, e é o alter-ego do policial Jim Corrigan que, capturaod por um chefão do crime, é preso em um barril preenchido com cimento e arremessado ao mar. Vítima de uma morte violenta, e guiado por um forte senso de justiça, o espírito de Corrigan recebe um chamado de uma entidade mística - que bem posteriormente seria definida como A Presença - para assumir uma missão: combater - e eliminar - o mal.


Capa de More Fun Comics #52, primeira aparição do personagem Espectro

Para executar essa missão, Corrigan receberá uma série de poderes que farão com que ele possa fazer virtualmente qualquer coisa. E quando falo qualquer coisa, é qualquer coisa mesmo. Se a criação anterior de Siegel, o Superman, conseguia fazer proezas que desafiavam os limites das capacidades físicas do ser humano, o Espectro dá um passo além, não se restringindo de modo algum aos domínios da matéria.


Já em sua primeira missão, Corrigan se vinga dos criminosos que o mataram e, desse ponto em diante, vira um combate do crime, criando seu "traje", um design que quase nunca foi alterado desde então, ao final da história.


Um detalhe bem curioso de se observar é que, desde o princípio, a história do Espectro está intimamente relacionada ao universo sobrenatural e, por conseguinte, do terror. Afinal, o próprio Corrigan pode ser considerado um revenant, uma criatura que volta dos mortos com um propósito claro, geralmente uma vingança ou algum outro tipo de negócios não concluídos. Não só isso, o modo como o personagem enfrenta seus oponentes sempre foi bem violento, visto que, diferente de outros heróis, o Espectro nunca teve ressalvas quanto a matar seus adversários, e as mortes por ele provocadas tendiam a ser um tanto quanto criativas.


Parte do elenco regular de More Fun Comics, o personagem também foi integrado na primeira equipe de super-heróis dos quadrinhos, A Sociedade da Justiça da América, já em sua primeira encarnação, em All Star-Comics v1. n.3 (1940-1941). No entanto, apesar dessa sua "popularidade", os dias de vingança do Espectro não seria longos.


Com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial as histórias dos super-heróis tiveram uma guinada de foco, transportando-o do combate ao crime para o combate às forças do Eixo. Nesse período, Jim Corrigan, agora já revivido e separado do Espectro, se alistou para servir às forças armadas na edição 90 da More Fun Comics (abril de 1943), como consequência, o espírito da vingança passou a se tornar um coadjuvante das histórias, virando uma força invisível que auxiliava o soldado Corrigan.


Capa da revista de All Star Comics v1. #23, que apresenta a Sociedade da Justiça sendo manipulada por mãos misteriosas. Dentre os heróis presentes, temos o Espectro

Um outro fator de extrema importância é que, a partir da década de 1940, vamos ver um declínio do gênero de super-heróis, explorado à exaustão pela indústria. De fato, por mais que o golpe de misericórdia venha no período pós-Guerra, muitos heróis e grupos foram desaparecendo das páginas dos quadrinhos, sendo substituídos por outros gêneros como o terror e a ficção científica. Com o Espectro não foi diferente. Em fevereiro de 1945, o personagem deixou as páginas da More Fun Comics na edição 101. Sua última aparição, porém, veio nas páginas da All Star Comics v1. n. 23, onde participou de sua última reunião da Sociedade da Justiça.


Mas a história do personagem estava longe de terminar.


O retorno do Espectro, desta vez ainda mais poderoso:


Pois bem, apesar de ter sumido junto com boa parte do núcleo de heróis da National, futura DC, o Espectro teria seu retorno ainda na Era de Prata, com o revival dos super-heróis no final dos anos 1950.


Capa de Showcase v1.#60, que apresenta o Espectro no seu centro. Pela direita, ele é atacado por uma entidade mística, pela esquerda por um avião de combate

Reestreando nas páginas de Showcase 60 (1966), com roteiros de Gardner Fox - um nome que, por si só, já valeria todo um artigo sobre, e arte de Murphy Anderson. Nesse período, os poderes do personagem são ampliados a um nível absurdo, sendo a base do personagem virtualmente onipotente que conhecemos hoje. Mais do que isso, esse período também trará as características batalhas cósmicas em que o Espectro irá se digladiar contra demônios e outras entidades místicas, usando planetas e luas como armas, garantindo, assim, que o personagem tenha um pé no nicho da ficção científica, a veia dominante na cultura popular da época.


Após sua estreia, o personagem ainda passa por mais 3 edições na Showcase, antes de uma participação na volta da Sociedade da Justiça à continuidade da DC e, finalmente, ganhar um título próprio. Capitaneada por uma série de autores e artistas - contando, inclusive com uma passagem de Neal Adams, essa primeira série do Espectro teve vida curta, se estendendo por 10 edições entre 1967 e 1969.


Já aqui, começamos a ver um dos principais problemas que assola o personagem: a saber, sua onipotência.


E aqui vou fazer um pequeno aparte como escritor, certo?


Veja bem, um dos motivos que nos faz nos importar com um determinado personagem são os desafios que ele precisa enfrentar e superar. Esses desafios, muitas vezes acompanhados por um risco de morte, colocam o personagem à prova - seja física, mental ou espiritualmente - de modo que, para vencê-los, é preciso que o mesmo se esforce e conquiste, se não a vitória, ao menos sua sobrevivência. Um exemplo bem claro disso esta no caso da batalha impossível, que já discuti neste outro artigo aqui. É esse processo, enfim, que nos faz ter interesse pelo personagem, uma vez que começamos a nos perguntar não só como ele vai conseguir resolver o problema, como também se ele vai ser capaz de resolvê-lo. Não só isso, quando ele consegue resolver o seu dilema, temos não só alívio, mas também um senso de admiração e satisfação ao ver que nosso herói conseguiu sair vencedor.


Claro que nem sempre isso acontece, afinal, existem narrativas que tem como objetivo quebrar justamente esse senso - e que trazem suas próprias problemáticas no processo.


E é aqui que entra a questão com o Espectro.


Veja bem, por ser um personagem tão absurdamente poderoso, é difícil fazer com que o leitor crie algum tipo de preocupação ou interesse no Espectro, visto que é bem difícil criar uma situação que represente um desafio para ele. É algo bem parecido com o que acontece com o Superman, mas com a diferença de que o último filho de Krypton possuí uma série de fraquezas e vulnerabilidades, algo que não acontece com o espírito vingador.


Capa de The Spectre v1.10, que apresenta o Espectro envolvido por sua capa em meio às névoas. Das sombras de sua capa, surgem olhos que observam o leitor

Assim, para que um personagem como esse mantenha uma série só sua...bem, as dificuldades são imensas.


E vou pedir que você guarde essa informação porque ela vai ser bem importante no futuro.;


De fato, tanto é que, como já disse acima, a primeira série mensal do Espectro chegou ao fim na décima edição, mas não sem antes ter seus últimos números transformados em uma antologia de terror, com o anti-herói desempenhando o papel de host para algumas delas.


Desse ponto em diante, o Espectro faria uma última participação importante em um novo encontro da Liga da Justiça com a Sociedade da Justiça antes de desparecer por algum tempo até um novo retorno nos anos 1970.


 O Espectro do Novo Testamento - Quando as coisas começaram a ficar bem violentas:


Capa de Adventure Comics v1.#431, que apresenta o Espectro derretendo as mãos de um criminoso

O retorno do Espectro nos anos 1970 irá acontecer nas páginas da Adventure Comics v1. n.431, com roteiros de Michael Fleisher e arte de Jim Aparo, na história "A Ira...do Espectro". Essa parceria, assim como no caso da primeira série do personagem, teria uma vida bem curta, se mantendo por mais 10 histórias. Ainda assim, deixaria um impacto gigantesco na trajetória do personagem. Afinal, para todos os efeitos, é aqui que o Espectro como o conhecemos hoje toma forma.


Incentivados pelo editor Joe Orlando, que havia recém saído da experiência traumática de um assalto, a dupla foi incentivada a criar uma versão mais sombria e implacável do personagem em resposta a um mundo progressivamente mais violento. Devolvendo o personagem ao cenário dos crimes urbanos, Fleisher e Aparo colocaram Jim Corrigan de volta ao papel de detetive, enquanto atribuíam à sua contraparte o papel de juiz, júri e executor.


Como dito acima, essa nova versão do Espectro é um personagem bem mais violento que suas versões anteriores. Incorporando uma Lei de Talião fortemente influenciada pelos quadrinhos de terror da EC Comics, aqui temos um personagem que pune os contraventores de formas brutais e curiosamente irônicas, sendo, aparentemente, um adepto do Departamento de Punição Irônica. Como exemplo, na primeira história, temos a investigação de um assassinato onde a vítima foi morta com um par de tesouras. A reação do Espectro ao encontrar o assassino? Cortá-lo ao meio com uma tesoura gigante:


O Espectro se transforma em uma tesoura gigante para punir um assassino

Naturalmente, essa abordagem mais violenta e brutal do personagem não foi muito bem recebida pelo público dos anos 1970 (de onde a vida curta da série), ao ponto da série chegar a receber um personagem chamado Earl Crawford, um jornalista que passa a atuar como uma voz crítica à atuação violenta do Espectro.


O que torna essa série particularmente interessante, pelo menos na minha opinião, é ver como ela meio que antecipa todo um movimento futuro. Digo, quando analisamos o cenário dos quadrinhos de heróis da época, por mais que houvesse, sim, um aumento de ocorrências de uma maior realidade e violência nas histórias, o tipo de resposta apresentada pelo Espectro destoa bastante do padrão, se aproximando mais das histórias de terror do que dos super-heróis. Contudo, será esse mesmo tipo de história que se tornará extremamente popular a partir de fins dos anos 1980 e começo dos 1990, onde personagens cada vez mais extremos e violentos como Justiceiro, Wolverine e Spawn terão sua ascensão nas prateleiras. Claro, existem ainda uma série de outros fatores que vão influenciar essa guinada mas, ainda assim, não acredito que podemos descartar por inteiro essa passagem do Fleisher-Aparo com o espírito da vingança.


Depois dessa curta série, o personagem participará em pontas em revistas como The Brave and the Bold, DC Comics Presents e no Monstro do Pântano de Alan Moore, assim como na Crise nas Infinitas Terras, antes de ter uma nova série própria em 1986.


Nessa nova empreitada, escrita por Dough Moench a série contou com a arte de Gene Colan em suas primeiras seis edições, e apresentou uma nova versão para o Espectro. Dessa vez, ele teve seus poderes reduzidos e foi tirado dos embates e questões de escala cósmica e introduzido no universo dos crimes que possuem alguma interferência sobrenatural. Além de Corrigan, a equipe de apoio contava com a presença de outra personagem do universo místico: a Madame Xanadu, que seria uma aliada/par romântico do personagem. Ao todo, a série durou cerca de 31 edições e 1 anual, sendo, até então, a incursão mais duradouro do personagem em um título solo.


Terminada essa série, porém, o Espectro retornou para seu repouso, contando apenas com uma breve participação em Os Livros da Magia.


No entanto, essa hibernação estava fadada a ser breve, e ele logo voltaria a atormentar os criminosos e criaturas sobrenaturais na série que iremos falar hoje.


O Espectro - A série de John Ostrander e Tom Mandrake.

Capa de The Spectre v3.#1. O Espectro, um homem pálido com uma capa verde, se coloca diante do observador. Sua expressão é séria e ameaçadora, e de sua mão emana uma rajada de energia. Às suas costas, temos um crânio formado por incontáveis esqueletos

Em 1992, chegou a hora do Espectro caminhar novamente sobre a terra, e desta vez sob a tutela de uma equipe criativa de peso. Nos roteiros, temos a presença de John Ostrander, autor bem importante nos anos 1980-1990 da DC, que participou, por exemplo, da remodelação do Esquadrão Suicida. Ao seu lado, veio o artista Tom Mandrake, que já havia trabalhado com o roteirista na série do Nuclear e em Grimjack, além de ter tido uma importante participação na revista principal do Batman, sendo um dos criadores do Máscara Negra.


Observação!

Para fins do presente artigo, vou me concentrar nas primeiras 12 edições da série, algo que nos permite ter um panorama geral do que está por vir. Caso queira, posso, um dia, fazer um comentário mais demorado em cada edição, explorando pouco a pouco o processo de construção desse volume. No entanto, para fins de brevidade, vamos nos ater a esse pequeno espaço amostral, certo?


Com essa nova equipe, surge também um novo modelo de abordagem. Aqui, Ostrander aproveita bastante a mitologia e os trabalhos anteriores da trajetória do Espectro, mas sem jamais se ater às amarradas da cronologia. Antes, ele as homenageia, jogando referências aqui e ali e aproveitando aquilo que acredita ser interessante para sua versão do personagem. O mesmo podemos dizer da arte maravilhosa de Tom Mandrake.


Se mantendo bastante fiel ao estilo que Jim Aparo deixou associado ao personagem, Mandrake consegue inserir também sua própria identidade no processo. Criando uma narrativa visual carregada de sombras e bem atmosférica, o Espectro de Mandrake se aproxima bastante de uma história de terror, algo que é reforçado pelas punições grotescas que o personagem inflige aos seus inimigos. Da mesma forma, seu traço dá peso e textura aos mundos envolvidos na história, seja ele o mundo real, com sua sujeiras e sombras onipresentes, seja nos mundos de sonho e pesadelo com que nosso protagonista se depara ao explorar as almas de seus investigados. Esse peso garante também uma seriedade e credibilidade às metamorfoses pelas quais o Espectro passa, afastando o tom cartunesco que um personagem como esse poderia facilmente absorver. Até mesmo quando homenageia os confrontos das eras anteriores, onde planetas e luas eram utilizados como armas, o artista o faz de uma forma tal que esses embates viram verdadeiras representações de apocalipses particulares.


O Espectro de Tom Mandrake engole um carro de assassinos. Detalhe da primeira edição


E essa estética casa maravilhosamente bem com a forma como Ostrander opta por trabalhar o Espectro - aquilo que, na minha opinião, é o ponto alto da séerie.


Ao longo do texto, eu expliquei que o Espectro é uma criatura que consegue ser virtualmente onipotente, o que o torna um personagem bem difícil de trabalhar. Assim, a decisão que o roteirista toma, é deixar de tratar o anti-herói como uma força da natureza e passar a tratá-lo como um personagem. Nesse sentido, Ostrander vai explorar as duas metades da equação do vigilante, criando, assim vulnerabilidades que se apresentam dentro de suas próprias falhas, ao mesmo tempo em que usa a série como um pano de fundo para uma sequência de questionamentos não só sobre a justiça e a natureza da vingança e, não menos importante: o mal, explorando suas origens e motivações.


Com Corrigan, Ostrander vai trazer toda uma bagagem que envolve um passado marcado por traumas que moldam seu jeito de pensar e agir. Filho de um pregador fundamentalista, o policial cresceu num lar onde as visões do Inferno, assim como o rigor de um mundo dividido em preto-e-branco, criaram uma atmosfera opressiva e violenta, chegando a inclusive respaldar abusos físicos. Essa fundamentação, associada com novos traumas que vamos descobrindo ao longo da série, vão moldando em Corrigan uma visão de mundo tão rígida quanto a de seu pai de modo que, ao se tornar um policial nos anos 1930, a tempestade perfeita se forma.


Representação da violência do Inferno pessoal de Jim Corrigan, O Espectro, conforme descrito por Tom Mandrake

Com um ambiente e uma profissão que lhe permitem dar plena vazão a sua violência, Corrigan se destaca em meio à força policial por suas abordagens brutais e violentas, até o momento em que é morto. No pós-vida, frustrado e preocupado com o destino de sua noiva, ele questiona o julgamento divino, onde passa a ser vinculado ao Espectro e recebe duas novas missões: a primeira, obviamente, é a de combater o mal. A segunda, bem masi complexa, é de entender o porquê da humanidade escolhê-lo.


Quanto ao Espectro, vemos uma entidade que não sabe sua verdadeira origem ou propósito, de modo que, acreditando ser sua função punir o mal, se apresenta tão inflexível quanto o seu próprio hospedeiro, enxergando tudo em termos de certo e errado, e sem o menor espaço para qualquer tipo de nuance. O que traz suas consequências.


Pois a união entre essas duas partes nos gera um vigilante que, apesar de ser praticamente onipotente, se revela uma vítima de sua própria miopia, se tornando ele mesmo uma vítima do drama que é jamais conseguir sequer começar a entender sua missão. Como resultado, vemos já na primeira edição da série, um Jim Corrigan extremamente cansado e exasperado, visto que, por mais que tenha atuado na Terra pelos últimos sessenta anos, não viu nenhum tipo de melhora. Não só isso, por mais que se dedicasse a punir o mal de modo severo, o mesmo permanece, se proliferando e multiplicando, o prendendo em uma jornada infinita, que, ironicamente, se mostra também uma punição ao próprio Corrigan que, vivendo uma vida violenta, se encontra agora em uma eternidade marcada por ela.


Isso, claro, sem mencionar que essa mesma ideia tua como uma crítica do autor movimento dos anti-heróis hiperviolentos dos anos 1990. Mas esse aqui é um tópico para outro dia.


Nesse aspecto, o elenco de apoio da série surge para ajudar Ostrander a desenvolver suas narrativas. Pois, com um personagem que é praticamente cego à nuances, será através das histórias daqueles ao seu redor que ele irá começar o processo de auto reflexão e crescimento.


Aqui, entra em cena um recurso bem interessante que é a visão do mundo espiritual de cada indivíduo. Durante suas investigações, o Espectro irá entrar nesses mundos para descobrir alguma verdade ou fato que escapa à visão dos mortais. Com a arte exuberante de Mandrake, a série aproveita para nos apresentar de modo bem claro as visões de mundo de cada ser que entra em contato com o Espectro, ao mesmo tempo que cria um terreno onde o personagem pode se ser ferido, e até mesmo morto, adicionando, assim uma camada de falibilidade e risco para o anti-herói.


O Espectro em confronto no mundo espiritual de um gângster, que dispara luas contra sua forma. Arte de Tom Mandrake na primeira edição da série

Um exemplo bem interessante disso se dá já na primeira edição, o personagem enfrenta Snipes, um ex-gangstêr responsável por ter entregue Corrigan para a morte. Vindo de uma família extremamente pobre, Snipes viu se  pai trabalhar duro em uma empresa até que, ao chegar na velhice, foi prontamente demitido, visto que já não cumpria mais sua função. Da mesma forma, seu irmão mais velho foi lutar na Primeira Guerra, apenas para figurar entre as inúmeras baixas da mesma. Assim, o criminoso passou a ter uma visão crua de um mundo cão, cuja pauta é a ideia de que a vida é cada um por si, com o mais forte pegando aquilo que quer dos mais fracos, deixando de lado coisas abstratas como bondade, companheirismo e as ideias de Céu e Inferno. Assim, em seu mundo particular, Snipes se apresenta como um figurão, um grande homem (literal e figurativamente) que oferece um bom combate ao Espectro, antes de encontrar o seu fim.


Em cada mundo e em cada alma, o Espectro vai encontrando essas visões e identidades que, longe de justificar, vão fornecnedo pequenas peças de um quebra-cabeça mais complexo que, ao mesmo tempo que nos permite entender um pouco da história que se desenrola, nos perimite entender os personagens, assim como ajudam na jornada de compreensão do nosso protagonista.


Uma outra pessoa que será de extrema importância nesse primeiro momento da série é a assistente social Amy Beitermann. Por mais que ela tenha uma caracterização que acho bastante limitada, e que se encaixe fácil no tropo das mulheres na geladeira, Amy, que surge como um potencial romântico para Corrigan, é também a responsável por fazê-lo questionar não só a natureza de suas ações, como também o papel da violência nas retribuições do Espectro.


Por mais que essa ideia não seja necessariamente nova, Amy aqui consegui ir além da mera crítica, fazendo com que Corrigan reflita não só sobre o modo como muito da violência que ele abomina está nele próprio, de modo que, em última análise, ele também carrega o mal que combate, como também o faz questionar a própria natureza da vingança. Afinal, se a justiça vem de uma instância divina, à ela também é atrelada uma outra qualidade, que é a da piedade. Aqui, não é a piedade que deixa o crime sair impune, mas antes, aquela piedade que regula a violência e brutalidade da retribuição, de modo que a justiça continue a ser justiça, e o crime continue a ser punido.


Amy e o Espectro discutem, em uma cena que lembra bastante a destruição de Sodoma e Gomorra

Esse é, particularmente, um dos meus pontos preferidos do trabalho de Ostrander. Tendo iniciado os estudos em seminário, muito dos questionamentos que o roteirista traz para a série são bem carregados de um questionamento filosófico, quiçá teológico. Claro, muito disso se diluí em meio à violência e ao formato em si - que, apesar de bem violento, não saiu pelo selo Vertigo - mas, ainda assim, há, sim, questionamentos bem consistentes e que trazem peso e dimensão à narrativa.


De fato, a própria violência e vinganças do título são sempre questionadas, principalmente através do cansaço palpável que Ostrander e Mandrake dão para seu Espectro, visto que, além de su alonga existência, o vigilante sobrenatural lida constantemente com a violência, seja ela praticada por ele próprio ou pelos outros. Isso, para além de entrar em choque com as narrativas da época, algo que já mencionei acima, garante também um peso bem amargo para a vingança do Espectro, visto que ela não consegue corrigir nada, apenas dar um encerramento que, sem devolver a vida, consegue, no melhor dos casos, trazer uma breve catarse ao leitor. Mas mesmo essa catarse é afetada pela brutalidade do Espectro, e pela consciência de que esse é apenas mais um caso dentre vários que serão vistos.


Voltando à Amy, seus questionamentos vão se mostrar bem interessante quando descobrimos sua história pessoal, onde ela descobre que contraiu HIV do ex-marido e que, sem saber, transmitiu essa doença para outras pessoas. Assim, por mais que a assistente possa ter ferido e talvez matado outras pessoas, ela traz para o Espectro a perspectiva de que a culpa por um determinado crime não é, necessariamente, equivalente ao mal em si. Esse tema continuará bastante proeminente ao longo dessas primeiras edições, visto que, em paralelo aos eventos, temos um serial killer que ataca mulheres soropositivas, um elemento que situa a série no seu contexto histórico, visto ser o HIV um dos grandes fantasmas dessa pré-virada de milênio.


Acredito que, a partir das dicas que eu fui jogando aqui, o destino de Amy se torna bem fácil de se imaginar, e essa é, de longe, uma de minhas principais críticas à série, por mais que também traga algo bem interessante para a dinâmica do Espectro: sua falibilidade, ela o faz com um preço bem caro e bem estereotipado.


O Espectro tenta salvar um fantasma antes de perceber sua verdadeira natureza

No tocante às suas vulnerabilidades, já mencionei que, ao entrar no mundo espiritual, o Espectro se encontra em posição de vulnerabilidade perante a alma que ele investiga, sendo essa uma das formas que Ostrander usa para nivelar o personagem. Mas existe uma outra forma que atua nesse sentido, que é o modo como o Espectro é representado como alguém que não só é capaz de errar e de falhar, como também é dotado de certas limitações.


Em termos de limitações, a morte de Amy se apresenta como um exemplo claro. Preso em um combate que atiçou sua sede de vingança, o Espectro não consegue chegar a tempo de salvar seu par. Da mesma forma, ele também não consegue revivê-la, visto que a assistente decide seguir para o pós-vida. Assim, temos uma noção clara de que a pretensa onipotência do anti-herói reconhece, sim, limites.


Outro exemplo claro dessa miopia e obsessão do Espectro, um tema bastante recorrente ao longo da série, se apresenta na segunda edição. Ao investigar a morte de uma jovem, o anti-herói entra no mundo espiritual do principal suspeito, apenas para descobrir que ele é inocente. No entanto, as visões que o Espectro lhe inflige são tão fortes, e o processo em si tão violento que, mesmo tendo sido inocentando, o homem tem sua mente quebrada, se enforcando tão logo é deixado só em sua cela. Assim, a própria sanha de vingança do personagem atua como sua maior falha, visto que sua jornada é brutal e implacável ao ponto de estar disposta a destruir até mesmo os inocentes que deveria proteger, sendo esses um dos pontos a ser trabalhado ao longo do desenvolvimento da narrativa.


E é isso que torna essa fase algo tão interessante.


Se tivesse que sumarizar a passagem de Ostrander pelo título, eu diria que foi a partir dela que o Espectro ganhou algo incrível chamado nuance. Com o repertório de Ostrander, entram em palco debates e discussões bem interessantes sobre a natureza da justiça e da vingança, assim como do papel daquele que se encarrega de executá-las, e o peso que essa missão pode trazer. Indo na contramão do padrão do mercado da época, essa é uma série que questiona o papel da violência e da vingança e que, mesmo com suas limitações, se dedica a lançar um olhar para dentro, seja da alma dos transeuntes, seja da alma do próprio protagonista, em busca das respostas que, por mais que as neguemos por seu horror, por mais que prefiramos não encará-las, são vitais para nosso crescimento como indivíduos.


E, quem sabe, uma vez que consigamos encarar essas verdades, possamos, enfim, ser livres...


A primeira aparição do Espectro e de Jim Corrigan na arte de Tom Mandrake


Referências:


Blog da Comic House - Anatomia de uma queda - Os 30 anos da Queda do Morcego



Por fim, sobre a origem do termo Departamento de Punição Irônica:





Certo, o artigo de hoje pode ter terminado por aqui, mas você já segue minha newsletter lá no Substack?


Durante o mês de outubro, preparei alguns conteúdos especiais para o mês das bruxas, com o último deles sendo uma análise de uma série de episódios da série Hey, Arnold!, onde observo as aproximações entre os episódios e as ghost stories.


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