Analisando Quadrinhos: Homem-Coisa Edição Gigante #4 (1975)
- Lucas Freitas

- 15 de jul.
- 27 min de leitura
Retornando a falar sobre quadrinhos, trago aqui uma resenha de um dos meus personagens favoritos, o Homem-Coisa, em um clássico dos anos 1970 produzido pelo lendário Steve Gerber.

E depois de muito tempo, retorno com o Analisando Quadrinhos, com uma trinca de favoritos. Afinal, a história de hoje é uma das minhas favoritas, de um dos meus personagens favoritos (o Homem-Coisa) e de um de meus autores favoritos (Steve Gerber).
Se você não conhece nem o Homem-Coisa nem o Steve Gerber, bem, não te culpo por isso. Por mais interessantes que possam ser, o primeiro é um personagem de terceiro escalão da Marvel, e o segundo é um autor maravilhoso que, por algum motivo, nunca recebeu o reconhecimento que merecia.
Mas não se preocupa que vou te falar um pouco mais sobre eles, e ainda sobre a história de hoje, publicada em 1975 na Giant-Size Man-Thing v1.#04 (algo como Homem-Coisa Edição Gigante). Então, sem mais delongas, vamos lá!
Primeiro, porém, deixa só te apresentar o sumário do que vamos ler hoje:
Agora, siga com cuidado, porque aquele que conhece o medo queima ao toque do Homem-Coisa!
Aquele que Conhece o Medo - A História do Homem-Coisa:
Surgindo pela primeira vez nas páginas de Savage Tales 1 (1971), o Homem-Coisa é uma criação de Roy Thomas, Gerry Conway, Stan Lee e Gray Morrow. Curiosamente, o trabalho conjunto por trás da criação do personagem é um dos mais bem registrados que temos para o período, com definições claras de funções e papéis. De fato, como informado pelo próprio Thomas:
Stan Lee me chamou; acho que estávamos no final de 1970, ou no começo de 1971. Ele queria lançar uma revista nova chamada Savage Tales, e uma de suas atrações ira se chamar de "Homem-Coisa". Na época, ele só tinha algumas ideias soltas sobre o conceito - acho que a ideia geral da história: um sujeito que estava trabalhando em uma droga experimental - ou algo assim - para o governo, depois ele é atacado por espiões, e termina se fundindo com o pântano e virando essa criatura. A criatura em si parece bastante com o Heap, mas nenhum de nós mencionou o personagem na época. Ainda assim, desde então, toda vez que alguém pergunta ao Stan sobre o Hulk, ele diz que era familiarizado com o personagem. Eu não gostei muito do nome "Homem-Coisa", porque já tínhamos um Coisa [o super-herói que faz parte do Quarteto Fantástico], e eu pensava que poderia ser confuso ter um outro personagem chamado Homem-Coisa. (Khoury,1999, p.20)
Sobre The Heap

Como você vai ver um pouco mais na frente neste artigo, existe uma certa polêmica a respeito do surgimento do Homem-Coisa e do Monstro do Pântano, uma vez que suas primeiras aparições ocorrem com uma distância beeem próxima, com o primeiro sendo publicado em Maio e o segundo em Julho de 1971. No entanto, o que não se fala muito é que, em 1942, existiu um personagem chamado The Heap, criado pelo roteirista Harry Stein e com arte de Mort Leave, tendo sua estreia na revista Air Fighters Comics n.3, publicada pela Hillman Periodicals. O personagem é o Barão Eric Von Emmelman, um piloto alemão da Primeira Guerra Mundial que foi abatido em. 1918, caindo em um pântano polonês. Ali, permaneceu vivo enquanto seu corpo era unido ao pântano, transformando-o na criatura que ficou conhecida como Heap.
Essa história, por sua vez, vai ser um tipo de protótipo para as criaturas do pântano que veremos depois, sendo, inclusive "assimilado" à mitologia do Monstro do Pântano por meio do piloto Albert Hollerer, que foi o avatar do verde na década de 1940.
Agora, uma outra curiosidade: você sabia que o Eugenio Colonnese criou aqui no Brasil, em 1967, um personagem que precedeu tanto o Homem-Coisa quanto o Monstro do Pântano? Esse personagem, o Morto do Pântano, atua como uma espécie de justiceiro que pune todos aqueles que invadem seu pântano para cometer crimes. Você pode conferir um pouco da série nesta crítica do site Plano Crítico onde são apresentadas algumas histórias do personagem e seu humor peculiar. Mas isso é um tópico para outro dia.

A partir das ideias de Lee, Thomas produziu uma história, que foi transformada em roteiro por Gerry Conway, sendo eventualmente ilustrada por Gray Morrow. Curiosamente, o design do personagem não passou por John Romita, que, na época, era o responsável pelo characther design dos personagens da editora, sendo criado pelo próprio Morrow, segundo Thomas (1999,p.21).
Agora, qual exatamente é a história do Homem-Coisa?
Bem, originalmente, o monstro do pântano da Marvel era o cientista Ted Sallis que, isolado nos pântanos da Louisiana, trabalhava no desenvolvimento de um novo tipo de fórmula secreta (mais tarde transformada em uma nova versão do soro do super soldado). Apesar da pesquisa parecer tranquila, Ted termina sendo emboscado por um grupo de espiões, liderados por sua parceira Ellen Brandt. Preso, o cientista consegue escapar, sendo perseguido pelos espiões. Em seu desespero para proteger a fórmula, injeta-a no próprio corpo, momentos antes de cair nas águas do pântano, onde é dado como morto.
No entanto, é ali que uma estranha transformação acontece. Reagindo com as águas pútridas, o soro termina alterando e deformando Ted, transformando-o na criatura nem humana nem vegetal conhecida como Homem-Coisa. Como um monstro, o cientista ganha força e uma capacidade de regeneração sobre-humana, além da habilidade de secretar ácido que queima todo aquele que sente medo - e é aqui que temos uma das características mais marcantes do personagem.

Pois, diferente das outras criaturas, como o Heap ou o Monstro do Pântano, o Homem-Coisa sofre também uma mutação mental e psicológica. Uma vez transformado, a criatura não tem mais a consciência de Ted Sallis, que lhe aparece apenas em flashes e relances esporádicos. Na maior parte do tempo, a "mente" da criatura, permanece inerte, não havendo pensamentos ou ideias próprias que se assemelhem a uma consciência. Quando muito, a mente do Homem-Coisa, se é que podemos chamá-la assim, atua como uma esponja, absorvendo as emoções das criaturas ao seu redor. E é a partir das emoções dos outros que o personagem reage. Assim, se alguém está agitado ou com raiva, o monstro se torna mais agressivo, se está tranquilo, tranquilo também está o monstro.
Mas, dentre todas as emoções que assolam a experiência humana, é o medo a responsável pelas reações mais fortes, visto que a criatura tem uma reação de ódio quase visceral ao mesmo. Assim, ao percebê-lo em outro, ocorre a secreção de ácido mencionada acima, e o Homem-Coisa inicia sua jornada em direção a destruir a fonte daquele emoção.
É daí que surge o bordão que sempre acompanhará suas histórias, "Aquele que conhece o medo queima ao toque do Homem-Coisa", criado por Steve Gerber, que irá se tornar o autor referência ao se falar do personagem.
Mas calma que ainda não chegou a hora de falar dele ; )
Depois dessa primeira participação em Savage Tales, o Homem-Coisa só aparecerá novamente nas páginas de Astonishing Tales n.12-13, sendo efetivamente introduzido no Universo Marvel, em um aventura escrita por Len Wein (sim, o mesmo que criou o Monstro do Pântano) e com arte de Neal Adams. A partir daí, o personagem será remanejado para a Adventures into Fear, uma revista que reapresentava historias de terror e fantasia da década de 1950. Nesse título o personagem irá fixar raízes, permanecendo até o número 19 (Dezembro de 1973) quando ganhará seu primeiro título solo.

Mais do que a primeira casa do personagwm, a Adventure into Fear vai fornecer um ponto de virada na trajetória do personagem. Primeiro, dará às suas histórias uma estrutura bem definida. Em narrativas quase sempre episódicas, o Homem-Coisa é arrastado para algum problema ou desventura graças à sua natureza empática. Uma vez envolvido, ele acompanhará o desenrolar dos eventos, ora atuando, ora observando, até o momento em que o medo se fará presente, o que o levará a agir, destruindo a origem do mesmo e trazendo um fim para o episódio.
Em segundo lugar, será também nessa revista que o personagem passará a ser escrito por Steve Gerber - e agora sim vamos falar sobre ele ˆˆ
Aventuras no Medo, com o Homem-Coisa...e Steve Gerber:

Natural de St. Louis, Missouri, Stephen Ross Gerber, mais conhecido como Steve Gerber, talvez seja um dos grandes nomes menos falados dos quadrinhos norte-americanos de super-heróis das décadas de 1970-1980. Tendo começado no meio através de fanzines, trabalhou tanto na Marvel quanto na DC Comics, mas talvez seja mais lembrado por suas contribuições na primeira. Afinal, ali criou não só Howard, o Pato (personagem que virou um verdadeiro símbolo cultural em fins dos anos 1970), como trabalhou com personagens como O Filho de Satã, Os Defensores, Demolidor e, claro, o Homem-Coisa.
Assumindo o título da criatura no número 11 de Adventure into Fear, Gerber viria a se tornar um nome indissociável do personagem. Primeiro, foi o autor por trás do famosos bordão que marca o clímax das narrativas do Homem-Coisa. Da mesma forma, foi ele quem "afinou" o personagem.
Possuindo um estilo bastante próprio, o autor é conhecido pelo vasto leque narrativo com que trabalhou. Ao mesmo tempo em que produzia narrativas "tradicionais" de super-heróis, também flertava com questionamentos filosóficos e sociais, sendo dono de uma verve crítica que beirava ao ácido, assim como de um senso de humor muitas vezes nonsense. De fato, por mais que escrevesse "dentro das normas" do gênero, suas narrativas sempre ganhavam dimensões e proporções que colocam Gerber naquele seleto rol de autores - como Bill Mantlo, Roger Stern, Jim Starlin, Doug Moench e Steve Engleheart, entre outros - que forçaram os limites das histórias de super-heróis, explorando possibilidades e ideias que só viriam a tona muitos anos depois, durante a invasão britânica das HQs.
O que, se você me perguntar, é uma pena, visto que o trabalho de Gerber, seja no Homem-Coisa, seja em Howard, O Pato, ou até mesmo em O Filho de Satã, é algo que deveria ser mais estudado e apreciado.
E é justamente para provar esse meu ponto que trago a história de hoje.
Podemos começar?
Homem-Coisa Edição Gigante vol1. n.4 - A História:

Nossa história tem início, como toda boa história de terror, com uma tempestade. Apesar de ser meio-dia, os céus da região dos Everglades estão mergulhados em sombras enquanto os elementos açoitam o pântano e seus habitantes que fogem em busca de abrigo. A única exceção disso, porém, é o Homem-Coisa que, imóvel, observa a tempestade.

É nessa página também, que já recebemos o título de nossa história: The Kid's Night Out!, algo que eu traduziria como A Noite das Crianças.
Seguindo com a narrativa, recebemos uma explicação do porquê da imobilidade do Homem-Coisa durante essa tempestade. Devido à sua natureza empática, a criatura sente que essa tempestade é algo anti-natural. De fato, o monstro sente que a mesma é uma "expressão de ultraje por parte dos elementos" (tradução minha). No entanto, esse acesso de ira traz consequências e, "como geralmente acontece nesses casos...", "...as vítimas terminam sendo aqueles que nada tem a ver com isso.", um cervo indefeso é atingido por um tronco.

Essa imagem será extremamente importante para nós no futuro, então peço que guardem ela com atenção e carinho, certo?
Agora, antes de prosseguirmos, porém, gostaria de fazer os primeiros comentários a respeito da história até aqui.
Primeiro, a história de Gerber já abre com um caso clássico de foreshadowing. Esse artifício, que podemos traduzir como antecipação, é apresentado até nós tanto de forma visual, com a tempestade anormal e o cervo atingido pela árvore, quanto pelo próprio texto, através da percepção do Homem-Coisa de que há algo de estranho acontecendo. Aqui ele desempenha duas funções: primeiro, estabelecer o clima e o tom da história, nos preparando para a narrativa que iremos ler e já nos informando, desde a página 1, que algo não está certo. Segundo, irá nos fornecer um gancho temático, que será trabalhado ao longo de toda a história.
Para fins de comparação, pense no fantasma do pai de Hamlet. Aparecendo no início da peça, sua presença alerta os soldados - e a plateia - de que há algo de errado acontecendo no reino, uma vez que a ocorrência do sobrenatural implica uma quebra na ordem natural das coisas. Assim, a aparição do fantasma do rei implica que algo de muito errado aconteceu. A natureza desse algo, por sua vez, será descoberta pelo príncipe Hamlet e explorada ao longo da peça, culminando com o encerramento trágico de sua jornada, e a correção do dito erro.
O segundo ponto de interesse está na presença do recordatórios. Sim, lembra deles? Já comentei um pouco sobre seu uso e função no Analisando Quadrinhos: Monstro do Pântano v2. 45, que os usa com bastante frequência. Mas não se preocupa que já vou recapitular aqui:
Recordatórios são esses quadros de fala que aparecem nas margens superiores - ou inferiores - dos quadros, e trazem informações sobre a cena ou o pensamento dos personagens envolvidos. Apesar de também ser possível utilizar os balões de fala, e dos finados balões de pensamento, para executar essa mesma função, existe aqui uma grande diferença entre um e outro que precisamos levar em consideração em seu uso: a sensação de distanciamento.
Pois, aos olhos do leitor, o uso do recordatório provocará sempre uma sensação de afastamento com relação àquilo que está sendo apresentado, o que dará ao quadrinho a sensação de um relato do qual o leitor é apenas um observador. Talvez isso ocorra justamente porque os recordatórios não tem uma origem determinada na página, mas confesso que ainda não consegui descobrir as origens exatas disso.
Aqui, os recordatórios irão assumir a função de um narrador onisciente, que terá conhecimento a respeito não só da história, mas também dos pensamentos dos personagens. No caso do Homem-Coisa, esse é um recurso que se mostra como vital. Porque, mais do que apenas afastar o leitor da narrativa em si, os recordatórios terminam sendo a única forma que temos de ter uma conexão com a história e o personagem, uma vez que o mesmo não só não fala como também não pensa, o que a torna também o fio condutor da narrativa.
Ao mesmo tempo, o uso dos recordatórios proporciona uma brincadeira bem interessante, uma vez que nós coloca na posição do próprio Homem-Coisa, "recebendo" as informações do ambiente da mesma forma que a criatura empática recebe as informações do seu.
Feitas essas observações, podemos retornar à história.
Sentindo o desespero do cervo, o Homem-Coisa cambaleia em sua direção, libertando-o da sua prisão. Sem mais impedimentos, o animal foge para longe, deixando o habitante dos pântanos a vagar sozinho, e é então que algo chama sua atenção: um forte sentimento de raiva. Assim, atraído por aquela forte emoção, a criatura parte em direção à sua origem. É nesse momento que, após um corte, somos apresentados à um padre que está celebrando uma missa fúnebre.
Na página seguinte, vemos que a cerimônia é em homenagem ao jovem Edmond Winshed, falecido há pouco tempo. Nesse ponto, o sermão do padre vai nos apresentando a todos os integrantes do funeral, passando por seus pais, tios, avós, o professor de educação física e colegas. Um a um, eles são apresentados para o leitor, em representações curiosamente tensas. De fato, apesar de conseguirmos notar aqui e ali algumas lágrimas, sobressaí entre eles um clima de tensão e desconforto relativamente estranhos para um enterro.

É quando o padre está para falar sobre os colegas de sala de Ed que uma garota se levanta e começa a promover um escândalo, acusando todos os presentes de assassinato. Se o incômodo inicial da família já não era o suficiente para nos indicar que havia algo de errado, a intromissão de adolescente surge para confirmar nossa suspeitas. Os gritos e queixas da garota fazem com que a família do falecido se altere, afetando, em particular, Samuel Pinder, o tio do falecido. Este, tomado pela raiva, avança na jovem, não só a agredindo com um soco, mas também a arrastando para fora do cerimonial. E enquanto tudo isso acontece, ninguém interfere, deixando que todos esses atos de violência sejam realizados impunemente.
Caída na lama, a jovem, agora nomeada como Alice Rimes, está em choque. Em seu interior, há um misto de dor física e emocional, enquanto ela processa não só a dor da perda de Ed, como também a dor do soco e da humilhação da violência que acabou de sofrer. Por um beve instante, ela até considerada por um fim me tudo - inclusive na própria vida, mas, a memória do amigo lhe vem e, dando um novo ânimo, a convence a resistir. Não só isso, essa memória também lhe da força para enfrentar os "assassinos" do seu amigo. E assim, com essa nova disposição, ela se levanta, apenas para se deparar com o Homem-Coisa, atraído até ali por conta de toda a comoção emocional do funeral. Pega de surpresa, ela grita, interrompendo mais uma vez a cerimônia.
Assim como da últimavez, é Samuel Pinder o primeiro que reage. Enquanto os demais apresentam seu desconforto, com sua esposa inclusive lhe pedindo para ir embora, Sam avança na direção onde deixou a garota, decidido a silenciá-la de uma vez por todas, custe o que custar. Nessa hora, temos vislumbres de seus pensamentos e das imagens de violência que ele concebe graças ao uso dos recordatórios, que nos apresentam com toda a clareza a imagem de um homem extremametne violento. Tanto que, quando encontra novamente Alice, ele se joga em cima da garota, pronto para agredi-la novamente, quando é impedido pelo Homem-Coisa.
Aqui, gostaria de fazer um pequeno aparte para apresentar alguns dos recordatórios maravilhosos que Gerber utiliza para nos apresenta essa sequência. Para manter o ritmo do texto, decidi apresentá-lo tal qual ele nos é apresentado nas páginas da história:
"Samuel Pinder despreza a moça por inteiro, e de uma maneira que alguns humanos têm aversão à cobras ou insetos...!
Seu rosto liso, sem beleza...sua forma sem atrativos, mal percebível...o que ela tem para oferecer ao mundo?
A insuportável agonia da verdade? quem é que pode dizer o que é a a verdade?
Por que alguém deveria ser forçado...
...a abrir seus próprios olhos...
...para ver coisas que eles não querem ver?
é muito melhor afastar essas cosias para bem longe...isso evita a dor de ter que olhar para elas.
mas, ainda assim, sempre existe o medo de seu retorno."
Ao perceber o monstro, toda a coragem de Pinder some, e, em seu lugar, surge o medo, o que faz com que sua mão seja queimada pela criatura, dando à Alice a oportunidade de fugir para longe dali. Enquanto isso, atraídos pelos gritos de dor, os demais participantes do funeral se aproximam, e é nesse instante que o Homem-Coisa percebe a origem do ódio que o atraiu até ali. Não conseguindo suportar aquela sensação, a criatura dos pântanos parte, encerrando, assim, a primeira parte da história.

O segundo capítulo de nossa história já começa em uma escola rodeada por pesadas nuvens de tempestade, retornando, assim, o tema da abertura da história, de que algo não está certo. De fato, aqui Gerber chega até a reforçar essa informação, deixando claro que, apesar dos últimos três dias terem sido marcados por chuvas intensas, as nuvens ainda permanecem no local, como se algo ainda estivesse para ser resolvido.
Dentro da escola, a tensão do clima se reflete nos próprios alunos que, em silêncio, evitam até mesmo olhar uns para os outros. Essa tempestade interna, por sua vez, é ocasionada por Alice, ou antes, pelo boato de que a jovem teria um diário escrito por Ed, e que traria em si a verdade por trás de sua morte.
Em silêncio, eles apenas observam sua passagem, experienciando um tipo de medo que se aproxima do temor religioso, evitando até mesmo se aproximar se aproximar de Alice. A única exceção é o professor de educação física, Lewis Milner, que tenta se aproximar da jovem de modo direto. Quando ela se recusa a lhe entregar o diário, o professor parte para a ameaça de agressão, que não surte o menor efeito. A jovem, ainda em seu luto, e ainda em choque pelas humilhações anteriores, apenas vai embora, se limitando a responder que, caso ele queira mesmo ler o diário, o mesmo será publicado pelo jornal da escola.
E por falar no jornal, esse é o próximo grupo a que somos apresentados, já na página seguinte. Agora, vemos Alice sentada no centro de uma roda de alunos. Com as mãos em suas costas, em um claro sinal de apoio, a Srta. Simmons, talvez o único adulto que realmente se importe com algum dos jovens nessa história, apresenta o caso da adolescente para os demais. Segundo ela, Alice tem a história real do que aconteceu com Ed, no entanto, ela tem medo que a fonte possa ser destruída, assim, ela está vindo até o jornal da escola para ler o diário do garoto morto e, quem sabe, conseguir publicá-lo, preservando sua história e apresentando a verdade ao mundo. Com a aceitação do grupo de ouvir a versão de Ed sobre o caso, Alice puxa um caderno negro, intitulado "O Livro de Edmond", e começa a sua leitura.
Aqui, somos apresentados a uma das características mais peculiares da narrativa de Steve Gerber que é seu apreço pela quebra do formato. Por mais que trabalhasse com a mídia dos quadrinhos, o roteirista não tinha nenhum problema em mudar completamente o formato em que estava trabalhando, geralmente substituindo-o por uma sequência de textos corridos, vulgo prosa. É essa a técnica que Gerber usa para nos apresentar a história de Ed, acompanhado pelas ilustrações de Ed Hannigan e Ron Wilson.

Dividindo-se em 5 capítulos, a sequência nos apresenta a vida de Ed, indo de sua infância até sua morte, em um epílogo escrito pela própria Alice. Este será o primeiro - e único - momento em que vamos conhecer o mundo pelo ponto de vista do garoto, e já digo de saída que não é uma visão agradável. Já no seu prólogo, ele afirma se identificar mais com o Homem-Coisa do que com seus colegas ou familiares. Muito disso se deve ao fato de sua relação com a família ser, no mínimo, turbulenta (seu pai não queria ter um filho, sua mãe queria uma filha, seu tio é um homem hiper violento que performa uma masculinidade extremamente tóxica) e com o próprio corpo (gordo, de óculos, ele não se encaixa no padrão de normalidade socialmente aceito).
Como se isso por si só já não fosse o suficiente, ao longo da sua história, vemos acompanhando esses pequenos atos de violência infligidos no dia-a-dia, ao mesmo tempo que testemunhamos os grandes gestos de violência, como no caso do seu tio, Sam, que, não gostando do fato de que Ed ser próximo de sua esposa (bem mais jovem, diga-se de passagem), tem uma crise de ciúmes e surra o garoto antes de expulsá-lo do emprego na oficina. E como se isso já não fosse ruim o suficiente, sua tia, a única pessoa que sabia que não estava acontecendo nada, e que assim poderia defendê-lo, não fez nada, deixando que o jovem apanhasse e o fazendo perder uma das poucas pessoas que ele considerava como uma amiga.
Se existe uma felicidade na vida de Ed, essa se dá em seu convívio com Alice. A adolescente não só aceita o garoto como ele é, mas genuinamente aprecia sua companhia, estando lá para apoiá-lo e ajudá-lo sempre que ele precisa e vemos como, gradualmente, a amizade dos dois vai florescendo em um ensaio de um romance, sendo, talvez, uma das poucas ocasiões em que Ed passa a se sentir mais humano do que o Homem-Coisa.

Mas até mesmo essa felicidade é passageira, visto que o romance é logo interrompido pelo professor de educação física, que, implicando com o "garoto gordo" da sala, era seu maior algoz, o forçando demais nas aulas. Esse abuso chega ao extremo quando, em uma das aulas de corrida, Ed implora que o professor deixa descansar, visto estar sentindo um grande desconforto no peito. Milner, claro, não lhe dá ouvidos, e o força a continuar correndo, e assim, preso nessa situação igual ao cervo do começo da história (eu avisei que essa imagem iria retornar), o adolescente é forçado até o momento em que sofre uma parda cardíaca, morrendo na frente de todos os outros alunos que nada fizeram para socorrê-lo ou impedir o professor.
E é com essa nota final que Alice termina sua leitura, dando espaço para um debate no clube, que entra em discussão.
Aqui é o momento em também que percebemos o porquê da mudança que Gerber impõe na história. Conhecedor do seu ofício de contador de histórias, o roteirista opta pela ferramenta que melhor irá ajudá-lo a causar o maior impacto em sua narrativa. Ao optar pela prosa, ele não só faz com que o ritmo de leitura fique mais lento, nos forçando a desacelerar e prestar mais atenção ao que estamos lendo, como também nos aproxima de Ed de um jeito peculiar. Morto, ele não aparece na história, assim, a única forma que temos de ter contato com esse elemento estranho é, justamente, pela inserção de um outro elemento estranho no quadrinho. Não só isso, a estrutura da primeira pessoa utilizada na prosa nos permite sentir com força total as nuances emocionais que assolam a vida do garoto. Assim,, mais do que apenas ver o mundo pelos olhos de Ed, sentimos o mundo com ele, nos aproximando de todo o sofrimento que foi a sua vida.
De volta ao clube, vemos que os alunos entraram em uma grande discussão. Por mais chocados que estejam com a história que acabaram de ouvir, por mais que se sintam culpados por sua inação, os estudantes ainda não sabem o que fazer. Uma parte acredita que devem publicar, outra, que seria melhor não. E nessa discussão eles vão se perdendo em suas próprias visões e crenças, mas, em nenhum momento, considerando o estado de Alice.
E é assim que, despercebida por todos, ela deixa a sala, deixando que a discussão corra solta. De volta ao sue armário, Alice guarda seu diário, sendo acompanhada por uma nova leva de recordatórios:
Por que será, ela se pergunta, que a honestidade sempre gera tanta controvérsia?
Por que será que a verdade tem que ser escondida? O que as pessoas esperam ganhar negando-a?
E mais uma pergunta: até que ponto eles irão..para mantê-la escondida?
E nesse exato instante, Alice é agarrada por trás por uma mão masculina, encerrando a segunda parte da história, e nos levando para a terceira parte dessa história em particular do Homem-Coisa.

No começo do terceiro capítulo, somos apresentados a uma visão de Alice presa. Essa visão é recebido pelo Homem-Coisa que, confuso, não consegue entender o que está vendo. Enquanto busca por uma possível origem para aquela imagem, seus olhos baixam para as águas do pântano e ali ele vê o reflexo de Ed. No breve instante em que seus olhos se encontram, o garoto se comunica com a criatura, que parte para atender ao seu pedido de ajuda, rumando em direção da escola.
E aqui, mais uma vez, somos apresentados àquela imagem do cervo. Inocente, a criatura se encontrou presa por conta de uma tempestade que além da sua compreensão. Da mesma forma, essa imagem se estende para os dois adolescentes que protagonizam nossa história: Ed e Alice. O primeiro, vítima de um mundo que parece odiá-lo por ser quem é. A segunda, vítima das pessoas que não querem que a verdade venha à tona, destruindo as verdades com que se cercaram no mundo.
Ainda assim, peço que guardem essa ideia, porque não vai ser a última vez que vamos falar dela, sim?
Enquanto o Homem-Coisa se aproxima da escola, vemos que Alice foi presa pelo professor de educação física que, após amarrá-la em um dos equipamentos de ginástica da escola, chamou a família de Ed para ajudá-lo a conseguir o diário. Aqui, vemos mais uma vez o retrato de quão disfuncional é a família do garoto. Pois, por mais que estejam sendo manipulados por Milner, eles se encontram envolvidos demais em seus próprios papéis para pensar. O pai de Ed, por exemplo, segue sendo o mesmo ser sem iniciativa, apenas seguindo o que os demais decidem. A mãe do garoto, por sua vez, se prende na ilusão de que não havia nada de errado com a situação do filho. A avó se preocupa mais com a reputação da família perante a sociedade do que com o que quer que tenha acontecido. A tia de Ed permanece muda, e seu tio, como sempre, se encontra ali para intimidar a garota com novas demonstrações de violência.
Ainda assim, Alice se recusa a entregar o diário. Percebendo a resistência da garota, o professor de educação física segue com suas ameaças, chegando inclusive a afirmar que recebeu permissão dos próprios pais de Alice para agir conforme achasse apropriado para "ajudar" a garota a sair daquilo que eles consideram uma depressão. No entanto, antes que possa agir, o Homem-Coisa invade a escola, causando uma comoção terrível enquanto avança em direção ao ginásio.

Em meio à fuga dos alunos, um zelador tenta reagir. Por mais que evite se envolver nos assuntos da escola e dos estudantes (sendo, inclusive representando como um omisso por Gerber, uma vez que sabe que Milner está no gináiso) a aparição de um monstro é demais até mesmo para sua imparcialidade, e assim, sem pensar duas vezes, ele avança com a enceradeira na direção do Homem-Coisa. Sem se importar com a máquina, a criatura se limita a arremessá-la de volta à sua origem, acertando, no processo, o zelador, uma das janelas do ginásio e, por acidente, o pai de Ed, que, sendo um capacho ao longo de toda a história, termina encontrando seu fim na máquina de um funcionário da limpeza.
O horror dessa primeira morte é seguido pela aparição do Homem-Coisa que, involuntariamente, acabou guiando um grupo de adolescentes curiosos até o ginásio. Ali, percebendo Alice, eletenta descer em sua direção mas, destrambelhada e sem a menor mobilidade, a criatura simplesmente desaba no chão, tirando do resgate qualquer vestígio de glamour ou heróismo.
O que se segue, então, são uma série de atos de vingança em memória do garoto morto, todos demarcados por aquela dose de ironia e moralismo tão característica dos quadrinhos de terror norte-americanos, onde os culpados e criminosos sempre são punidos de alguma forma relacionada às suas ofensas.
A primeira das vítimas é a tida de Ed. Sendo a pessoa que sabia de toda a verdade, mas que ainda assim escolheu ficar calada, a jovem tem sua boca cauterizada pelo toque do Homem-Coisa, o que a torna incapaz de falar, e até mesmo de gritar de dor. Em seguida, é a vez do tio do garoto, que tenta defender sua esposa atacando a criatura. O bastão de baseball que ele usa, um instrumento que sempre foi odiado por Ed devido à sua inaptidão para esportes, é inútil contra uma criatura feita de lodo e vegetação, que não ignora o ataque como revida, agarrando o homem e o arremessando, tal qual uma bola de baseball, em direção a um dos aparelhos de ginástica, onde, devido ao impacto, Sam tem a coluna partida.

Em seguida, o Homem-Coisa arremessa para longe tanto a avó quanto a mãe de Ed, aquelas duas pessoas que sempre tentaram negar a realidade, negando as experiências e sentimentos do garoto ao mesmo tempo em que tentavam reconfortá-lo, e reconfortar a si mesmas, com mentiras. A falta de interesse da criatura é justificada por seu foco no professor de educação física, o grande algoz de Ed. Apesar de tentar fugir, o homem é capturado pelo ser do pântano que, seguindo a dor e a raiva do garoto, executa uma vingança que nunca pôde ser realizada em vida, sendo acompanhado por uma das falas de Ed:
"Ninguém tem o direito de engordar, de arruinar o seu corpo." Edmond certa vez disse para Alice.
"Mas ninguém tem o direito de fazer uma pessoa odiar a si mesma." ele continuou.
"Pessoas como Milner--elas destroem corpos ecaráter, não os constroem."
"Eles deveriam rezar todos os dias para que não queimem no inferno pelo que fazem!"
Acompanhado por esse recordatório, o Homem-Coisa une as mãos do professor em um gesto de súplica. Dominado pela raiva pela situação de Ed, a criatura não consegue se conter, ainda mais enquanto houve o homem responsável por toda a dor e sofrimento daquela criança se colocando numa posição de vítima, se perguntando o porquê de estar sendo posto naquela situação.

Incapaz de falar, o Homem-Coisa apenas arrasta Lewis para fora do ginásio, esperando cosneguir ao menos demonstrar o porquê de tudo aquilo para o professor e os demais alunos. É só quando a criatura saí do recinto que os alunos conseguem descer para o local onde Alice está sendo mantida presa e a resgatam. Ainda zonza por conta das atribulações pelas quais passou, a jovem se limita a perguntar se alguém masi viu Ed no ginásio, ao que os demais alunos apenas afirma que é impossível ele estar lá, uma vez que ele morreu. Alice, porém, insiste em dizer que ele estava presente e é então que percebe o sumiço do professor de educação física. Em pânico, ela pergunta onde ele está, sendo informada que o Homem-Coisa o levou para fora do ginásio, em direção à pista de corrida. Desesperada, a jovem corre até o mesmo local onde Ed morreu, mas apenas para encontrar mais um morto.
Caído há apenas alguns centímetro do local onde Ed faleceu, o cadáver de Lewis se encontra abandonado. Não só isso, os adolescentes percebem, com horror, que o coração do homem foi queimado pelo Homem-Coisa, sendo cauterizado em duas partes. E, por mais que eles jamais venham a sber o porquê daquilo, Gerber nos apresenta os motivos da criatura, enquanto mostra seu retorno aos pântanos que são seu lar:
"Em cada camada, Lewis Milner teve a oportunidade de se redimir . Mas seus sentimentos jamais mudaram."
E assim o seu coração foi cauterizado em dois."
Apesar de todo o ódio, apesar de todo desejo de vingança, a criatura deu ao professor uma chance de reconhecer seu erro e sua culpa. De fato, tivesse ele percebido que havia sido cruel ou violento com o jovem, ele provavelmente teria sobrevivido ao seu encontro com o Homem-Coisa. No entanto, crente de ser ele a vítima, incapaz de sentir qualquer tipo de empatia para com os outros, o homem decretou seu próprio fim.
Aqui, é impossível não retornarmos ao paralelo com o cervo. No entanto, esse é um paralelismo que não se fecha. Afinal, tanto o cervo quanto Alice tiveram a oportunidade de fugir, reconhecendo a ajuda que lhes foi oferecida. Lewis, por outro lado, não. Sua própria atitude de se ver como o centro daquele drama, ignorando a dor que provocava nos outros, e não percebendo, assim, a própria oportunidade de salvação que recebeu, impedem que ele seja salvo, fazendo com que sua situação seja mais um reflexo distorcido do que um paralelismo puro.
E, para nos dar o contraste definitivo dessa situação, a história se encerra nos apresentando que, por maior que fosse usa raiva, o próprio Ed, o espírito que acompanhou o Homem-Coisa ao longo de sua jornada de vingança, não encontra qualquer tipo de satisfação com aquela morte. De acordo com o próprio Gerber, ele chorou enquanto via seu professor morrer, esperando por um pedido de desculpas que, mesmo nas portas da morte, nunca veio.
E é assim, com essa nota agridoce, que a história chega ao seu fim: com mais de uma vida perdida, e um vazio que nunca poderá ser plenamente preenchido.

Homem-Coisa Edição Gigante vol1. n.4 - Comentários finais sobre a história:
Bem, não minto que esta é facilmente uma das minhas histórias favoritas do Homem-Coisa no período do Steve Gerber, e se você acompanhou o breve resumo que eu fiz acima, deve imaginar o porquê.
Por mais que os anos 1970 já tenham visto os quadrinhos de super-herói lidando com questões do mundo real, acredito que poucas vezes fomos apresentados a uma situação tão complexa quanto a do jovem Ed, pelo menos nos quadrinhos mainstream.

Veja bem, a família do garoto é disfuncional em um nível que deixaria Neslon Rodrigues orgulhoso. Seu pai pouco se importa com ele, sua mãe tenta protegê-lo do mundo. Seu tio é violento e grosseiro, um exemplo bem distinto daquilo que hoje chamamos de masculinidade tóxica. Assim, não é um exagero ao dizer que Ed sofre uma sequência de abusos (físicos e psicológicos) ao longo de toda a história. De fato, até mesmo sua morte é provocada pelo abuso do poder de seu professor de educação física, que não respeitou os problemas do garoto e o forçou a continuar correndo, o que releva também um outro tópico, a questão do abuso de autoridade.
A crítica a uma autoridade abusiva e cega é um tanto quanto recorrente no trabalho de Gerber, aparecendo de formas diferentes aqui e ali. Em uma história do Filho de Satã, por exemplo, ele apresenta o caso de uma universidade que foi invadida por demônios, sendo estes convidados por um professor que não queria ver as coisas mudando. No caso da história atual do Homem-Coisa, essa autoridade é encarnada pelo professor de educação física, que abusa de seu poder e, mesmo no final, não consegue entender o que havia feito de errado. À isso, alia-se também uma estrutura onde o silêncio retroalimenta o abuso. Esse silêncio, vindo daqueles que sabem o que está acontecendo, mas se omitem, é o que permite que a situação escale tanto, e é representado tanto pela tia de Ed, que não tentou defendê-lo das agressões de seu tio, como também pelos demais alunos, e pelo próprio zelador. Todos ali, afinal, sabiam do que estavam acontecendo, sabiam que Ed sofria, mas, ainda assim, escolheram não se intrometer, permitindo que a situação chegasse em sua conclusão inevitável.
É notável também o quão Gerber deixa claro a lucidez do garoto, e como não tenta dourar a pílula ao relatar sua situação e sua relação consigo mesmo. Percebendo que não se encaixa naquilo que é esperado de sua família, e sabendo que não se encaixa no modelo de "garoto padrão" da escola e dos esportes, Edmond se sente completamente desconectado do mundo ao seu redor. Seu desconforto consigo, que é representado bastante pelo modo como ele se vê e fale de sua aparência, é tamanho que a única proximidade que ele sente é com o Homem-Coisa, uma criatura que se parece com um ser humano, mas que antes se aproxima de uma caricatura do que de um retrato fiel, mas que, nesse contexto, termina sendo seu único "semelhante".

Ao lado de Ed, Alice também termina sendo uma outra vítima nessa história. Em um caso bem flagrante de misoginia, ela é ignorada e agredida ao longo de toda a história. Não só isso, assim como no caso dos pais de Edmond, os pais da jovem parecem não saber o que fazer com ela, confiando que uma figura de autoridade, o professor de educação física, saberá como "ajudar" sua filha, relegando seu papel de pais e educadores à um outro, e mantendo, assim, um grande abismo entre sua filha e eles próprios.
Percebem o que torna essa história tão fascinante? Além da atualidade dos temas apresentados por Gerber (afinal, essa história poderia muito bem se passar nos dias de hoje), existem tantas camadas aqui que às vezes é até difícil focalizar em uma só e comentar sobre.
Da mesma forma, o domínio da narrativa do autor é fenomenal. Ao decidir quando quebrar a narrativa padrão dos quadrinhos e invocar uma sessão de prosa, ao criar recordatórios que são ao mesmo tempo uma lição de ritmo narrativo e um tapa na cara, Gerber dá ao Homem-Coisa uma identidade tão própria que é impossível não vê-lo como uma criação sua, gozando de uma liberdade bem atípica do meio mainstream em sua época.
Muito disso, claro, se deve ao fato de estar trabalhando com um personagem secundário em um gênero (terror) também visto como algo menor. Isso, no entanto, não impediu que o roteirista explorasse suas ideias e exercitasse seus músculos narrativos, propondo discussões de temas e questões sociais bem pesados, e que, como eu disse, se mantém relevantes ainda hoje.

É claro que essa característica, não se limita apenas a sua fase no Homem-Coisa, uma vez que tanto no Filho de Satã quanto em Howard, O Pato, Steve Gerber deu plena vazão a sua verve crítica. Ainda assim, não deixo de achar curioso como é no Homem-Coisa, uma criatura incapaz de falar, que Gerber tenham encontrado um porta-voz tão eloquente para uma série de críticas, usando o caráter empático do personagem para conferir peso e forma para bater de frente com o horror das violências e conformismos do dia-a-dia.
E tudo isso enquanto alternava com histórias mais simples e "bestas". Afinal, outra marca bem característica de Gerber era que ele era conhecido por escrever o tipo de história que ele queria escrever no momento.
Agora que estamos no final do texto, acho que também é válido fazermos um breve comentário sobre a comparação inevitável entre Monstro do Pântano e Homem-Coisa. Porque, ao mesmo tempo em que manteve uma veia bastante crítica em sua passagem pelo Monstro do Pântano (como você pode ver aqui), à época um outro personagem secundário, é inegável que Alan Moore teve muito mais liberdade para trabalhar, e expandir, os limites dos quadrinhos como mídia, conseguindo se livrar de muitas das restrições do mainstream. Steve Gerber, por outro lado, nunca conseguiu se ver 100% livre dessas amarras. Contudo, mesmo com elas, foi capaz de produzir histórias bem impactantes, ainda que voltadas para um público mais jovem, como demonstrado neste pequeno microcosmo escolar e familiar que acabamos de conhecer, um palco de um verdadeiro drama social, e também espaço para críticas sociais bastante contundentes e atuais.
Viu porque adoro essa história? E porque sempre lamento de não termos nada da fase do Gerber relançada por aqui?
Referências:
Entrevista The Thing About "Man-Thing" conduzida por George Khoury em Alter Ego #81, 1999
Plano Crítico - Crítica: O Morto do Pântano
GicoHQ - Morto do Pântano! Eugênio Colonnese em Mestres do Terror
Uaréva - Eguênio Colonnese
E aproveitando que falamos sobre criaturas do pântano e crítica social, deixo aqui o link de uma das edições da minha newsletter, onde falei sobre o Monstro do Pântano e sua relação com O Papel de parede amarelo:

Quer conhecer um pouco mais do meu trabalho como escritor? Pois então tenho a coisa certa para você! No meu primeiro livro solo, o Música da Noite, reúno oito contos de terror baseados no folclore brasileiro. Nele, você vai encontrar algumas criaturas já bem populares, como o Boto ou a Mula Sem Cabeça, mas com aquele pequeno porém que deixa a coisa diferenciada.
O livro saiu pela Urutau e você pode adquiri-lo no próprio site da editora, vulgo link abaixo:
E por hoje é só!



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